Gracias vieja

O Brasil entra em todas as competições como favorito para ganhar. Simples assim, explicam Parreira e Felipão sobre pressão nos jogadores para ganhar a Copa do Mundo. Há poucos dias o treinador argentino Sabella disse que os argentinos se acham os melhores do mundo em tudo, mas que isso pode ser tanto bom quanto ruim. As diferentes falas dos treinadores não são mais que isso, elas não representam em campo as vitórias de um ou de outro. Mas talvez expliquem as formas de perder ou ganhar.

O maior fiasco da história do futebol: 7 a 1 para Alemanha. Felipão e Parreira não assumem erros, não assumem ser um vexame e ainda leem carta de apoio à comissão técnica. Beirando o ridículo. Dois campeões mundiais beirando o ridículo. O erro principal dos dois talvez não tenha sido necessariamente colocar a pressão nos jogadores mas o de não identificar a óbvia pressão que os jogadores sentiram. Óbvias na partida ao se desmantelarem tomando gol após gol num resultado sem nenhum precedente.

O Brasil não entra em qualquer competição como favorito. Entra como favorito quando tem um time bom. Não é e nem pode ser natural. Ainda mais quando tem um time de jovens pressionados e um esquema que desvalorize suas forças e exponha para o adversário. A seleção Brasileira (para parar de usar o país como se fosse e não um time de futebol) perseguia um fiasco. A arrogância de ser o país do futebol não consola a inevitáveis derrotas de 74, 78, 82, 90, 98, 2006 e 2010. Derrotas normais para times melhores e a prepotência nos diz que perder é fiasco.

Finalmente o fiasco.

Mas o futebol é assim. Campeões mundiais beirando o ridículo. Os jogadores e treinadores de futebol passam pela gangorra da vida em 10, 15 anos. Ninguém sabe o que reserva para os jogadores que atuaram na goleada implacável da Alemanha. Atletas de alto nível nos principais clubes do mundo marcados pelo fracasso de uma derrota histórica. Uma derrota histórica e esportiva.

Por outro lado, a Argentina vai para uma final após 24 anos. Contra o mesmo adversário que perdeu a Copa de 1990 e tem a chance de ‘vingar’. Na partida que derrotou a Holanda e se credenciou para a final os jogadores argentinos trajaram uma tarja preta em homenagem ao falecimento do ex jogador Alfredo Di Stefano. Um dos maiores jogadores da história do futebol e também um jogador marcado pela participação nas Copas do Mundo. Argentino de nascimento Di Stefano naturalizou-se espanhol (assim como o húngaro Puskas) e defendeu a seleção de futebol do país durante o período do ditador Francisco Franco na Espanha. Franco utilizou do sucesso do glorioso elenco do Real Madrid e da seleção espanhola para propagandear e beneficiar o regime. Ambos os times tinham em Di Stefano e Puskas os grandes destaques.

Hoje Di Stefano é lembrado pelo jogador que foi, assim como Pelé um dia será (e não pelas contraditórias atitudes fora de campo). Ronaldo um dia será lembrado como o fenômeno dentro do campo, para além das derrotas e fiascos esportivos. Não lembraremos do patético comentarista ou do membro do Comitê organizador da Copa ou de suas reações preconceituosas no caso das travestis ou das declarações infelizes sobre a sociedade brasileira. Como a última falando da goleada de prêmio Nobel da Alemanha sobre o Brasil, ignorando o histórico e o contexto político econômico das nações e até mesmo o avanço de profissionais acadêmicos e científicos do Brasil nos últimos anos e que esta área não se pontua em títulos, ao contrário do futebol.

Um dia lembraremos dos jogadores também pelas vitórias, mesmo sendo em clubes, e não só pelo fracasso esportivo de 2014. E lembraremos de Felipão e seu titulo mundial e não pelas dezenas de comerciais que fez em meio a carreira. E Parreira pelo Tetra e não por ler uma carta numa coletiva depois de perder por 7 a 1.

Voltando a Alfredo Di Stefano, além de ter sido um fenomenal jogador e de ter sua imagem relacionada (futebolisticamente) com Francisco Franco, uma das mais terríveis figuras da história da humanidade tem outra história significativa. Um dia em sua aposentadoria comprou uma casa e nela fez uma singela peça decorativa. Em frente à casa construiu uma estátua de uma bola de futebol e escreveu ‘ Gracias, vieja’.

Assim mesmo, com derrotas, vitórias, façanhas e fracassos, nós, amantes do futebol, no fim das contas falamos ‘Gracias, vieja’. Damos graças a existência da bola, de Ronaldo, Pelé, Julio Cesar, David Luiz, Muller, Klose, Kross.

Damos graças ao futebol justamente por ser uma metáfora. A melhor metáfora. Somos derrotados e humilhados e daqui quatro anos aparecemos de novo e foi assim que a Seleção Brasileira já conquistou cinco títulos em meio às derrotas citadas no terceiro parágrafo. Porque felizmente a humilhação sofrida pelos brasileiros em campo não se compara à humilhação passada por nossos antepassados em guerras, massacres e desigualdades que marcaram a história da civilização.

Por Chico Guazzelli