Teve beijo lésbico. E agora?

Um. Dois. Três. Na minha conta, foi esse o número “escandaloso” de beijos trocados entre as personagens Marina (Tainá Müller) e Clara (Giovanna Antoneli), na novela Em Família, e que chocou os defensores dos valores (sic) da família brasileira. Agora, ao invés do “não vai ter beijo”, os comentaristas de internet estão em plena campanha do “chega”.

Com a barreira do beijo quebrado, o pedido de muitos é de que as telenovelas globais parem de exibir casais homossexuais ou que, ao menos, deixe que eles permaneçam assexuados como acontecia até o selinho trocado por Félix (Mateus Solano) e Nico (Thiago Fragoso), na trama Amor à Vida – que não foi nenhum símbolo de expressão da sexualidade plena.

Crédito: Reprodução/TVGlobo

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Ao que parece, o beijo é a expressão máxima do lugar até onde os homossexuais podem chegar, mas o que está por trás desta reclamação é uma homofobia mal escondida e o regime da heteronormatividade operando como nunca.

Um dos principais pesquisadores sobre a homofobia, o argentino Daniel Borrillo, tem uma frase que se aplica a estes comentários de internet: “Ninguém rejeita os homossexuais; entretanto, ninguém fica chocado pelo fato de que eles não usufruam dos mesmos direitos reconhecidos aos heterossexuais”.

Dentro desta “tolerância intolerante” estão as omissões por trás do beijo entre as personagens lésbicas. Clara e Marina não tiveram os mesmos direitos que personagens heteros, não apareceram expressando seu afeto/sexualidade como as demais personagens. Ainda assim, foram mais longe do que as 116 personagens LGBTs que apareceram nas telas globais até o inicio de 2013.

Um avanço? Em alguma medida, sim. Mas com uma homossexualidade altamente regulada e higienizada. Clara e Marina são um casal homoafetivo. Clara e Marina são brancas, jovens, símbolos de uma beleza padrão, classe média alta. Clara e Marina se casaram, pensam em ter filhos, seguem um relacionamento monogâmico. Clara e Marina não são sapatões. Clara e Marina representam uma homossexualidade que ameaça muito pouco o status quo da heteronormatividade.

“Elas não podem ser assim?”. Elas podem sim. Mas o problema é que as representações da homossexualidade feminina nas telenovelas seguem este padrão majoritariamente. Outras expressões de sapatice estão longe das telas da Globo. A lesbian chic casada e comportada é o modelo.

E aqui entra uma diferença de gênero que precisa ser ressaltada: lésbicas e gays são representados de forma muito distinta. Ainda que tenhamos muitos gays dentro de um padrão heteronormativo – no qual Rodrigo (Carlos Casagrande) e Tiago (Sérgio Abreu), de Paraíso Tropical, são um exemplo clássico – as bichas loucas estão aí, tocando um foda-se no “seja gay, mas seja discreto”. E as sapatas?

A homossexualidade feminina, assim como a própria sexualidade feminina, é mais regulada do que a homossexualidade masculina. Mulheres e seus corpos estão a serviço de homens, mesmo em um relacionamento em que o gênero masculino não tenha espaço. Ironicamente, mesmo um beijo entre duas mulheres precisa ter uma referência masculina: é beijo gay.

Mais do que pensar se beijou ou não beijou – e que bom que beijou, convenhamos – é pensar quem beija, o que representa, o que silencia. E se for para escrever especificamente sobre Em Família, mais importante que o beijo foi o andar de mãos dadas pelas ruas, o ir ao cinema e jantar em família, o explicar didaticamente que casais homo tem sim os mesmos direitos, foi o falar abertamente disso, foi o cotidiano de um casal. E, porque não, foi ter outra personagem como Vanessa (Maria Eduarda) para gritar que “casar é uma cafonice”. É um direito. Mas é “brega”.

O que vem depois de um beijo é o ato sexual? Talvez seja. Mas o que tem que vir antes é uma representação mais plural, mais queer, que não nos enquadre, que não nos higienize e que pare de nos construir como sujeitos homossexuais dentro de normas heterossexuais.

Por: Fernanda Nascimento, sapatão, jornalista e mestranda em Comunicação Social (PUCRS).