O cinismo visceral Ou Não confie nem alimente o escritor

 

Bukowski surgiu em um tempo ingrato para alcançar alguma atenção crítica. O fim dos anos 60 e o início da nova década trouxeram, de uma única vez e com alguns de seus trabalhos mais reconhecidos, Pynchon, Toni Morrison, DeLillo, McCarthy e Philip Roth — escritores focados na recriação, principalmente via paródia e humor negro, do estado da sociedade estadunidense afundada na Guerra Fria, na intervenção militar em outros países e em seus próprios conflitos raciais e de classe internos. Bukowski, nesse panorama, era um estranho. Como os beats haviam feito anos antes, ele se debatia com vigor contra o American Dream (que já era apenas um fantasma do que havia sido) e buscava trabalhar com o material marginal que via nas ruas. No big deal, principalmente quando a névoa da vanguarda se dissipou e se tornou claro que os procedimentos do chamado modernismo europeu e de Faulkner eram bem mais do que um uso para os prosistas beats — eram a essência já defasada do seu trabalho. Claro que alguns se salvaram, como Burroughs e a sua ainda não devidamente reconhecida trilogia Nova, mas muitos voltaram para o conforto do lar chorar para suas mães. Mas, devo avisar, as semelhanças entre Bukowski e os beats não vão muito além. Aliás, essa semelhança superficial fez muito mal para a recepção crítica.

É fundamental compreender que a obra de Bukowski pouco tem a ver com a ingenuidade de um Kerouac. Sal Paradise e os outros alter-egos de Kerouac seguem uma linha reta e sem surpresa que leva direto ao escritor. Já o Chinaski de Bukowski é um exemplo de um cinismo enganador, pronto para confundir o leitor de uma forma que poucas autoficções atuais conseguem. Bukowski entrou para a memória coletiva como evidentemente um bêbado, sem objetivos e com um certo desvio sexual. A maioria de seus leitores não consegue estipular aquela linha imaginária e maravilhosa que separa autor e narrador. A crítica estadunidense, mais preocupada em escarafunchar qualquer coisa que se pareça, mesmo a distância, com o Great American Novel, deu pouca atenção para esse detalhe tão importante. Quantos outros escritores conseguem confundir tão bem seu público? Na obra de Pynchon, por exemplo, a confusão está presente em cada palavra — porém, o leitor, seguro de si, sabe até que ponto ela vai. Já o leitor de Bukowski sequer percebe que está sendo enganado.

Claro que não estou jogando suposições por aí. Me dói informar, mas Bukowski não era um bêbado, sem objetivos e com um certo desvio sexual. Quer dizer, em algum ponto de sua vida até foi, mas não o tempo inteiro. Tanto seu editor quanto suas ex-namoradas e algumas pessoas próximas sempre confirmaram que Bukowski era até um cara bem normal. Outra informação dolorosa: ninguém lê sobre caras bem normais. Ou pelo menos não enquanto seu país inteiro se arrasta para uma recessão econômica, assiste pela televisão o fim patético de uma guerra que não deveria nem ter começado e tem Richard Nixon como presidente. Bukowski não era apenas cínico na construção de suas histórias, mas era cínico também na construção de seus alter-egos — cinismo mais visceral que sua prosa, mais esperto e atento ao que corria de verdade nos subterrâneos da América.

Proust fez um estrago na literatura estadunidense. Da Lost Generation até os beats, todos se contaminaram pela insônia de Marcel. Entretanto, para a confusão que Bukowski tentava criar, Proust era pouco. Ele foi um pouco mais fundo e encontrou Céline — outro grande enganador. Junto com John Fante (o segundo cínico americano), Céline pavimentou o caminho de Bukowski na busca pela confusão total do leitor, pelo colapso e pela totalização da crença na figura do autor. Vocês sabem: o poeta finge e o escritor mente. Mentira é uma das bases da ficção, e a verdade, graças a Deus, não tem nada a ver com isso. Pensando bem, para acabar, é até bom que a crítica nunca tenha se dado conta da riqueza escondida por debaixo de algumas descrições ruins de sexo. Tenho a sensação que logo iam começar a falar sobre duplos e a fazer análises semióticas. Críticos são um saco.

Por Bruno Rodrigues