Cidades abertas

Open city é um termo militar, utilizado no contexto de guerra, quando há o domínio iminente de uma zona urbana e toda defesa foi abandonada. Também é o título de um romance de Teju Cole, publicado dois anos atrás, que fala, entre muitas outras coisas, sobre a vida em uma Nova York ainda na sombra do atentado. O lento perambular do narrador em exílio por parques, avenidas e estações de metrô acaba remetendo, de maneira indireta, a Holden Caufield, o flâneur americano por excelência. Os romances, com um pouco de boa vontade, podem ser lidos como complementares: enquanto Salinger falava sobre o deslocamento da juventude em um cenário de crescimento econômico causado pelo período do pós-guerra europeu, Cole fala sobre o deslocamento dos imigrantes em um cenário de recessão  econômica causada, em parte, pela tradição militarista do país. As guerras são centrais em ambas as obras, apesar de não serem parte do enredo. A experiência da cidade, de andar sem objetivo (a psicogeografia situcionista aplicada), ganha caráter de resistência passiva contra os embates subjetivos dos narradores — coisa que toma as estruturas das obras e as faz romances fragmentados, sem um enredo da forma tradicional (mas, ao mesmo, um pouco distante de qualquer radicalismo mais bruto).

Não é segredo para ninguém que o primeiro autor a propor a experiência da cidade como foco da narrativa foi Baudelaire, ali por 1857. Seus predecessores imediatos variam de Dickens (que, em 1838, em Oliver Twist, preferiu usar Mudfog — uma cidade fictícia aos moldes de Londres), Balzac* (que entre 1829 e 1847 se debruçou sobre Paris para escrever os volumes que formam La Comédie humaine) e Dostoiévski (seus personagens constantemente percorrem São Petesburgo, muitas vezes sem motivo), até Petrônio (que já no século I estava absorto na estética possível das descontinuações urbanas das cidades gregas e romanas). Apesar dos anteriores, Baudelaire foi um dos primeiros escritores a ter a sensibilidade para compreender o papel estético da metrópole e como ela atua sobre a cultura e sobre a vida prática. O conjunto de Les fleurs du mal pode ser encarado não só como um livro de poemas, mas, do mesmo modo que Salinger e Cole, como uma narrativa longa, fragmentada e sem enredo tradicional. É igualmente notável o sentimento de deslocamento que Baudelaire experimenta. De certa forma, ele também é um imigrante. A nova Paris (após as reformas de Napoleão III e Haussmann) retratada nos poemas é vista como um ambiente onde a corrupção paira sobre os prédios e sobre as boulevards alongadas.

Walter Benjamin, o provável melhor crítico de Baudelaire, também foi seu leitor mais atento nos pontos que citei acima. Um de seus trabalhos mais ignorados pelos leitores brasileiros,  Das Passagen-Werk, é um apanhado fragmental e inconcluído sobre a vida cultural, política e social da Paris do século XIX. Mais: é a tradução em tinta e papel do espírito da cidade, um tour de force por cada esquina, por cada poeta e por cada pedra das barricadas da Comuna. Ele se constui além como um romance improvável, com um enredo tão enorme que se destrói e com tantos personagens que acabam se misturando, fora da presença de um narrador. Ponto central e ainda nublado da literatura do século XX e também ponto central nessa discussão sobre a literatura que é extraída da experimentação e da sedução da cidade.

Recuperando um pouco o fôlego antes de seguir pra próxima parte: o que estou dizendo é que há uma espécie de narrativa (tanto faz se é poética ou em prosa, ficcional ou não) que recria, utilizando elementos formais como a fragmentação e o abandono do enredo, o espírito das grandes metrópoles. Essa narrativa está presente em alguns dos momentos mais importantes da literatura dos últimos três séculos e transcende qualquer classificação menor. Em plano mais amplo, é possível pensar na influência e na quebra que essa espécie de narrativa gera em toda a tradição ocidental — aliando assim o ideário estético da produção literária com o da arquitetura e do planejamento urbano. O espaço, pela primeira vez, está colocado acima de qualquer outro tema.

O ponto nevrálgico dessa discussão foi publicado pela primeira vez em 1922, e, como não poderia deixar de ser, responde pelo nome de Ulysses. Quando Joyce transmuta a vida diária de uma metrópole em uma epopéia sem heróis nem deuses, ele não está apenas dando uma contribuição fundamental para a ideologia do modernismo (que tende a estabelecer uma barreira diferencial entre o antigo e o novo), como está dando a prova cabal de que a cidade é tema incontornável e que ela estará sempre, dali para frente, ligada à matéria do escrito. Ulysses é igualmente importante por conta da noção de labirinto (Dedalus serve aqui ironicamente como um Virgílio pós-adolescente) e pelos “filhos” que acabou gerando. Entre os anos 20 e 40, muitos outros romances despontaram na influência da obra joyceana, romances que aprofundaram e solidificaram a presença da cidade. Quando digo que são muitos, são muitos mesmo: dá para citar de Peterburg (publicado em 1913, mas revisto em 1922), de Andrei Bely, e Manhattan Transfer (1925), de John dos Passos, até Adán Buenosayres (1948)*, de Leopoldo Marechal, passando por Berlin Alexanderplatz (1929), de Döblin. Há também a Praga de Kafka, a Viena de Musil… Mas creio que estas já estavam bem formadas mesmo antes de Joyce.

Creio que aqui já estamos de volta em Salinger. The Catcher in the Rye foi publicado em 1951 e, junto com a experimentação inconclusa de Benjamin (publicada tardiamente nos anos 80, mas escrita entre 1927 e 1940) e as experimentações radicais de Perec, lançou novas formas de investigar a cidade. De lá para cá, as cidades se transformaram em fantasmas sempre presentes nas produções literárias. O Open City de Teju Cole parece, de certa forma, um fechamento e um esgotamento desse ciclo — o qual tinha ganho uma parca sobrevida com a Cidade do México de Bolaño). As metrópoles se transformaram. Estão mais confusas e herméticas, entregues para a especulação imobiliária, abrigando cada vez mais pessoas e modificando suas ideologias em relação ao espaço público.

(Talvez o leitor esteja se perguntando onde está o Brasil nisso tudo. A verdade é que sempre escrevemos pouco sobre as nossas cidades. Tirando o Rio de Machado, a Porto Alegre de Dyonélio, a Curitiba de Trevisan e algumas outras poucas exceções, as metrópoles dificilmente são vistas como um ambiente propício para o desenrolar de enredos ou vidas. É de se pensar em um narrador como Rubem Fonsceca, por exemplo, que transcorre suas ações quase sempre em foro privado (dentro de um carro ou de uma mansão). Nossos livros mais importantes sobre as cidades se passam fora daqui — Oswald e Reinaldo Moraes em Paris, Sousândrade em Nova York.

Triste Bahia e outros que tais.)

* Sobre Balzac e a comédie humaine é fundamental notar que o primeiro volume da obra, Chat-qui-pelote, inicia com uma longa e exaustiva descrição da arquitetura da mansão onde se desenrola parte do enredo da novela. Essas aproximações são recorrentes nos demais volumes e demonstram que Balzac já compreendia a importância desempenhada pelos prédios e ruas da cidade na vida corrente.

* Buenos Aires que, vale citar, já era uma cidade absorvida pela sua literatura. Fervor de Buenos Aires (1923), livro de poemas de Borges no qual ele estabelece visões para os subúrbios de sua infância, ou Los siete locos (1929), de Arlt, são exemplos.

Por Bruno Rodrigues