Diário de cinema: moedores de chocolate

Parece até um delírio. As salas dos cinemas ricos de Porto Alegre, tão maltratadas pelos progr
amadores, foram tomadas por grandes filmes de Abel Ferrara e Alain Resnais.

Bem-Vindo a Nova York, o novo de Ferrara, ocupa quatro horários da Sala 1 do Espaço Itaú (é a sala dos filmes em 3D!). Pesam, é claro, o efeito vedete de Gerard Depardieu e o fato da história retomar livremente um grande crime sexual do nosso tempo, aquele que arruinou a trajetória política de Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor do FMI e provável candidato socialista à presidência francesa nas eleições de 2012.

Mas Ferrara não está interessado no fato político – e nem em colocar o crime sob suspeita. Mostrando o abuso sexual sem meias imagens (mas também sem explorá-lo), o cineasta não precisa perder tempo acusando ou defendendo seu personagem. Aquilo aconteceu. Também não está preocupado em pintar minuciosamente um cenário político. O retrato das instâncias do poder não poderia ser mais direto: uma sequência desenfreada de surubas sem um pingo de tesão.

 O filme escurece e torna-se mais íntimo – crescendo bastante – quando a esposa do protagonista entra em cena. Aos poucos fica claro que a fidelidade a um homem que age como um psicopata sexual e que responde pelos atos como uma criança mimada, é, na verdade, a fidelidade a um projeto de poder.

Há quem diga que se trata de um Ferrara atípico, mais pessimista, já que em outros filmes, mesmo em contextos ultraviolentos, há sempre a iluminação de uma beleza milagrosa. Mas não me parece por acaso que um diretor acostumado a encontrar uma transcendência entre sua turma, ou seja, entre os marginais – traficantes, policiais, prostitutas, artistas, produtores de filmes pornô, etc, que está apresentando nesta semana, no Festival de Veneza, um filme sobre os últimos momentos de Pasolini – veja apenas o horror entre economistas, advogados e figurões da política internacional.

coluna çeonardp

Já Alain Resnais, o maior dos heróis do cinema moderno que morreram neste ano, chega às salas com sua despedida: Amar, Beber e Cantar, uma deliciosa aproximação entre teatro e quadrinhos. Mais uma obra-prima, com esse protagonista incrível que nunca aparece, mas que determina cada passo dos amigos, desesperados com a notícia de que ele logo morrerá. Lembrei, de cara, da famosa frase de Godard em Aqui e Acolá: “no cinema a gente nunca vê quem dá as ordens, apenas quem as recebe”. Na vida não é tão diferente, Resnais parece dizer em seu suspiro final.

O triste é que esse último Resnais, não apenas o de Amar, Beber e Cantar, mas também o de Medos Públicos em Lugares Privados, o de Ervas Daninhas e Vocês Ainda Não Viram Nada, sai de cena sem deixar nenhum herdeiro. O Resnais mítico de Hiroshima Mon Amour, O Ano Passado em Marienbad, Muriel, o das narrativas estilhaçadas, dos jogos com o tempo, o que está enquadrado na história do cinema, deu cria rapidamente, já nos anos 1960 – algumas “idiotas e monstruosas”, como apontou no calor da hora o crítico Jean Douchet. Mas o Resnais de hoje, talvez ainda mais desconcertante em sua aparente simplicidade, não deixa nada. Nem um mísero bastardo.

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Alguém reclama que o problema de O Mercado de Notícias é o teatro filmado. Até quando os apóstolos do cinema vão sujar as calças quando o teatro se aproxima? Se existe algo que atrapalha desde o início o documentário de Jorge Furtado é justamente a ausência do teatro: os pequenos trechos da peça de Ben Johnson funcionam mais como vinhetas apressadas do que como fio condutor (ou contextualizador ou desagregador). A pressa pune: nada é problematizado – especialmente porque quase ninguém termina uma reflexão, fica aquele corta-corta típico do documentário brasileiro que encarcera todos os tópicos expostos pelos entrevistados. Nota-se, é claro, que os jornalistas assumidamente de esquerda têm posições de esquerda. Já os funcionários da Globo, sempre cínicos, falam do tema como se ele fosse um planeta distante. Não faz sentido, num filme como esse, convidar alguém da empresa para falar sobre jornalismo e não o colocar na parede. No fim, talvez por medo de soar panfletário, o filme belisca um sem número de pontos cruciais e de generalidades inofensivas, mas não abraça com gosto o tema evidente (que o deixaria menos abstrato e mais poderoso politicamente): mostrar como a nossa imprensa rica trai os princípios mais básicos do jornalismo para forjar uma oposição ao governo do PT.

Por Leonardo Bomfim