Ricardo Lísias foi censurado

Antes de tudo, um retrospecto.
No segundo semestre de 2011, Lísias deu sinal de vida. Primeiro, veio a edição caseira de um conto chamado Meus Três Marcelos, que circulou em PDF na internet até ser publicado em um livreto. Depois, outro conto na Piauí, chamado Divórcio.

Confesso que, na época, apesar de ter gostado do material, não entendi muito. Tinha conhecido o trabalho de Lísias alguns anos antes, em 2009, na ocasião da publicação do romance O Livro dos Mandarins – uma obra calcada em saídas possíveis para o já cansado modernismo que trata sobre o inferno dos executivos tecnocráticos. O Livro dos Mandarins é um romance que se encaixa bem (bem demais até) na produção literária brasileira recente, apesar do tom político que diverge da maioria dos outros prosistas em atividade no país. Aqueles dois contos no fim de 2011 me deixaram confuso. Eram parecidos com o seguimento do trabalho do autor, mas, ao mesmo tempo, havia alguma coisa diferente. Li que ele iria publicar um romance em 2012 e relaxei. Não adiantava muito ficar batendo cabeça para compreender algo que ainda estava em processo.

Antes do romance, mais um conto foi publicado na Piauí. A Corrida seguia o rumo de Divórcio — tão estranho quanto. Assim, O Céu dos Suicidas foi publicado. A “crítica especializada” correu e tascou que aquilo era um exemplo de “autoficção”. Vocês não sabem o medo que tenho da “crítica especializada”. O termo autoficção não me era de todo estranho — já tinha sido utilizado, no passado recente e com um pouco mais de cuidado, para se referir a trilogia “autobiográfica” de Coeztee (que acabou destruindo essa tentativa de enquadramento quando se matou no último volume, Summertime). Autoficção, porém, é muito pouco para o que estava em desenvolvimento. Lísias colocava em cheque as quatro instâncias (autor, persona, narrador e personagem) básicas da criação literária ao tornar todas em uma só e diferenciá-las ao mesmo tempo. Todas se chamavam Ricardo Lísias, porém não entravam em acordo. Detalhes apareciam o tempo inteiro na narrativa e minavam aproximações. O texto em si, pendendo entre a comédia e a tragédia, rápido, furioso e psicótico terminava por assombrar o leitor. Guardava algumas semelhanças com o autor que eu havia conhecido antes — ainda bebia do modernismo, mas a estética havia se aprofundado. Era agora mais fragmentado, mais eliptíco (porém sem nunca cair na confusão -Lísias é um narrador profundamente elegante). Eu ainda tentava entender. Já era possível vislumbrar algo, apesar de não saber o quê. 

Conforme as coisas corriam, mais contos foram publicados – na já habitual Piauí e na Granta (na qual Lísias entrou para a lista dos “melhores jovens escritores brasileiros”, seja lá o que isso queira dizer). Agora o projeto se alongava, corria por temas dispersos – do atual cenário geopolítico latino-americano até reminescências da nossa ditadura.  O último conto, O Tom Certo, apareceu em abril de 2013. Conforme o projeto avançava, ele também se desgastava. Havia o jogo de ilusão e farsa, tão próprio da nossa época (a Internet não deixa de ser um jogo de ilusão e farsa), havia a incerteza. A incerteza, dentro da literatura, corrói tudo, destrói os edifícios estéticos (o legado que a escrita radical, entre Beckett e Céline, nos deu). Era um momento iminente. Poderia acabar bem ou acabar mal, com uma falha. Os leitores e a “crítica especializada” estavam confusos. As farsas que Lísias colocava nos contos e no romance funcionavam. As quatro instâncias estavam realmente em choque. Então, veio Divórcio e tudo despencou.
            Divórcio possivelmente seja o romance mais importante publicado por estes anos. Sustenta as misérias de um projeto estético arriscado ao tempo em que o implode. É cômico, raivoso e político. Desnuda todo trajeto que citei aqui. Mentira e verdade deixam de importar – além, cria algo entre a mentira e a verdade. Quem é e o que fez Ricardo Lísias é irrelevante. A literatura da América Latina tem um apreço por bombardear a figura do autor (Lautréamont, Macedonio Fernández, Borges, Silviano Santiago), mas o que Lísias realiza é um passo a mais, é um estado de confusão bem próprio do nosso período. A sanha do romance contra o Autor e contra a binaridade mentira/verdade se desdobra sobre o aspecto social mais visível desses embates, que é o jornalismo. As descrições dos entremeios da grande imprensa cultural são análises frias, uma declaração de guerra. Quando Lísias escreve sobre as reuniões e festas, sobre as viagens para cobrir eventos, ele demonstra os mecanismos que regem a farsa na vida real. Já que este texto está cheio de adjetivos, aí vai mais um: avassalador. A declaração de guerra foi aceita. A grande imprensa cultural tentou boicotar o livro. A “crítica especializada” ficou boiando. Lísias evitou dar entrevistas, mas quando deu, a primeira pergunta foi: “Você está namorando?”. O projeto estético radical encontrou a ética radical pelo caminho.

 

Acabou o retrospecto.

            Como dizia, Ricardo Lísias foi censurado. Publicou um conto em e-book chamado Delegado Tobias. O tal delegado entrou com uma ação judicial. Tudo foi atualizado no calor da hora pelo Facebook. Muitos ficaram indignados. Era mentira, por óbvio. Mas poderia ser verdade. Talvez fosse verdade. Mas é claro que era mentira. Ou não.

Delegado Tobias talvez seja o fim do ciclo iniciado em 2011. Avança pelas ruínas do Divórcio. O formato do e-book é estranho, todo quebrado e em partes. Um pouco além da fragmentação. Muitas vozes soltas, sem identificação, todo narrado via reportagens e diálogos de figuras que não se apresentam. A piada da piada. Ricardo Lísias, como o Gato de Schrödinger, está vivo e morto. O narrador e a personagem matam o Autor e a persona. Deu um nó em muitas cabeças. O além-conto, todo feito em manchetes publicadas na página pessoal de Lísias no Facebook, é uma continuação daquilo que não foi narrado. Como se falasse: literatura no século XXI, blá blá blá, é um evento de espetáculo -e o escritor do nosso tempo deve saber domar o espetáculo, espetacularizar o espetáculo.

Agora, não sei para onde Lísias vai. Não vejo como continuar o projeto. As ruínas viraram migalhas. No espaço de três anos, ele foi o mais fundo possível na proposta feita. Foi uma coisa bonita e aterradora de acompanhar, incomum na literatura brasileira recente, a qual prefere, cada vez mais, o caminho já explorado e certo. Só digo mais uma coisa antes de encerrar a transmissão: estejam atentos para o que ele fará nos próximos anos. Junto com Mirisola e alguns (poucos) outros gatos pingados, nosso futuro está aí.

“(Atualização: foi divulgado hoje, 20/09, que Delegado Tobias vai ser um folhetim em cinco partes. A análise acima se refere apenas à primeira, publicada no início deste mês.)”

Por Bruno Rodrigues