Diário de cinema: o tédio de mulher vestida

 Finalmente Era Uma Vez em Nova York estreou nos cinemas brasileiros – mais de um ano após sua primeira exibição, no Festival de Cannes de 2013, e um bom tempo depois do blu-ray já estar à venda em lojas estrangeiras. Mas é daqueles filmes que realmente justificam a tela grande: James Gray faz cinemão. 

 Um cinemão cada vez mais raro, aliás. Me parece um filme traiçoeiro com quem fica esperando uma trama, uma correnteza de acontecimentos e reviravoltas com os personagens. Entre o ponto de partida e o final, não encontramos muitos desenlaces narrativos, ao contrário de outros filmes do próprio Gray. Era Uma Vez em Nova York tem uma imobilidade rara e sedutora.   

 A personagem de Marion Cotillard, uma polonesa que tenta entrar na Nova York dos anos 1920, só tem uma meta: resgatar a irmã que ficou detida com suspeita de tuberculose. Podemos pensar mil e uma aventuras a respeito de seu passado misterioso, assim como fazem todos que se deixam levar pela fragilidade poderosa de seu olhar, mas para o filme, a personagem é essencialmente alguém que precisa salvar a irmã. Isso vai condicionar e justificar todos os seus atos. E ela encontra alguma possibilidade de êxito ao lado de um personagem oposto, o de Joaquin Phoenix, também um imigrante (o que revela a ambiguidade do título original, The Immigrant), mas já estabelecido, de alguma forma confortável no sonho americano: tem seu território, seus soldados, suas damas, seus inimigos. O que acompanhamos no fim, discretamente, porque Gray conduz tudo com a ponta dos dedos, é a virada da ampulheta: a fragilidade até certo ponto estratégica da mulher termina no momento em que o homem se despedaça de vez, num dos encerramentos mais assombrosos dos últimos tempos.      

 Por mais que seja um filme atípico do diretor, que encontra os personagens num momento bem anterior aos que ele encontrou em obras seminais como Caminho Sem Volta (2000) Os Donos da Noite (2007) e Amantes (2008), todos com histórias de retornos, reencontros e tentativas fracassadas de restabelecer alguma ordem emocional,  o tradicional reino dos fodidos de Gray está todo aqui, mais poderoso do que nunca em seu clímax.       

 Há quem tenha torcido o nariz, mas James Gray está no ápice de sua trajetória. Impressiona, ainda mais pensando no cenário hollywoodiano atual, a sensibilidade para filmar essa personagem complexa: uma mulher que precisa da ajuda de um homem mas que não precisa dele. Um diretor de mão pesada poderia fazer dela a mulher mais detestável da história do cinema. Não é o caso.  Há o tom exato para filmar essa jovem pragmática, uma típica personagem de guerra que o cinema moderno nos deu aos montes, para quem a necessidade de sobrevivência justifica os meios e os fins, ao lado de outro muito mais clássico, trágico, dono de construções sólidas que podem (e vão) desabar. Não é fácil filmar pessoas tão próximas dividindo necessidades tão distantes. Ironicamente, a solidão do mais clássico dos cineastas contemporâneos em seu meio o faz parecer até um diretor experimental. 

 *** 

Manakamana

A Sessão Plataforma segue com a missão de tirar a cidade do atraso, ao apresentar obras como a do Sensory Etnography Lab. É um centro de pesquisa interdisciplinar de Harvard que aproxima a investigação estética da etnográfica em suas criações. Entre elas, alguns filmes espantosos. No ano passado, dentro da Plataforma, vimos Leviathan (2012), de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, filme num barco pesqueiro que pode ser traduzido como o sonho da câmera (e o pesadelo dos peixes). Agora, na última semana, vimos na Sala P. F. Gastal outra pérola do grupo: Manakamana (2013), de Stephanie Spray e Pacho Velez. Obra estrutural que nos coloca dentro de um teleférico no Nepal, acompanhando uma série de viagens de pessoas dispostas a ter um encontro religioso no templo que dá título ao filme. Existe o cuidado na criação de uma narrativa quase escondida – num primeiro olhar, o minimalismo parece uma regra intransponível, mas logo percebe-se as camadas que o filme oferece, não apenas em relação às questões etnográficas da região, mas às da própria natureza da narrativa cinematográfica – a montagem sonora, em alguns momentos, sugere que muitas daqueles viagens acontecem ao mesmo tempo, como se nós estivéssemos borgianamente confinados às idas e vindas naquele teleférico.

 Com uma estrutura rígida e personagens variados, Manakamana consegue pedir passagem dentro do chamado filme-dispositivo, a febre do contemporâneo, o mais próximo da ideia de jogo (quando as regras estabelecidas a priori determinam todos os movimentos, inclusive a possibilidade infinita deles) que o cinema pode chegar, e revisitar um dos primeiros gêneros da arte dos filmes, quando eles ainda eram vistos em feiras, parques e teatros de segunda classe: o cinema de atrações. A missão dos filmes ainda não era a de contar uma história (num sentido literário), mas simplesmente mostrar alguma coisa acontecendo na frente da câmera. As senhoras que se lambuzam com os picolés durante oito minutos dentro do teleférico de Manakamana são personagens típicas do primeiro cinema, um devoto fiel da anarquia.     

 Pelo que consta no IMDB, a produção do  Sensory Etnography Lab ainda apresenta mais quatro títulos: Sweetgrass (2009), de Ilisa Barbash e Lucien Castaing-Taylor, Foreign Parts (2010), de Verena Paravel e JP Sniadecki, Parque do Povo (2012), de Libbie Dina Cohn e Sniadecki, e Yumen (2013), de Sniadecki. Que a gente possa ver o quanto antes!

 

 

Por Leonardo Bomfim