Notas sobre futebol: os treinadores, racismo e política

Nos anos 1990 e a primeira década de 2000 estourou no Brasil uma tendência no futebol brasileiro: os grandes treinadores. Felipão e Luxemburgo puxaram o time de técnicos badalados por torcida e imprensa, com seus grandes feitos no inicio de suas carreiras. Copiou-se assim, a tendência europeia: os grandes treinadores começaram a ser tão disputados como os artilheiros, meio campistas e zagueiros.

Na Europa o efeito ainda continua. Mourinho e Guardiola são badalados, disputados e geralmente cumprem suas visões estratégicas de futebol, claro, com resultado. Na Copa do Mundo ficou evidente a qualidade e disposição dos treinadores das seleções europeias (aqui uma exceção bem sucedido foi a Argentina) de transformar suas equipes com esquemas privilegiando ora a bola ora a composição dos jogadores no campo.

As mudanças de jogadores e de posições dos jogadores, por exemplo, nas seleções da Holanda e da Alemanha (Lahm e Blind, são grandes exemplos), configuram uma distância gigante entre os atuais treinadores brasileiros que foram revolucionários nos anos 1990 e são extremamente conservadores nos anos 2010. Incapazes de perceberem, ao menos num primeiro momento, a grande constatação da Copa: as adaptações das equipes às partidas e aos adversários.

O esquema da Holanda, quase sempre um 3-5-2, com Sneidjer adiantado dos outros meio campistas, foi adaptado jogo a jogo, com utilização de pontas ou de quatro zagueiros, e de mudanças de posições de jogadores como Blind. A Alemanha soube mesclar quatro zagueiros com o uso de laterais como Lahm, e os jogadores se alternaram do inicio ao fim na titularidade conforme a necessidade do jogo.

Jogadores brasileiros por todo o mundo estão acostumados a ora serem escalados e ora serem reserva. Entrarem em posições diferentes conforme a expectativa da partida. Os treinadores em sua imensa maioria não conseguem, no Brasil, mudar uma partida ou a estrutura do time conforme inesperadas adversidades. Da mudança dos esquemas no inicio dos anos 1990 com o uso, ousado apara  a época,  de três zagueiros, volantes, o ‘fim ‘ dos pontas, não se evoluiu nada no corpo tático das equipes no Brasil. Isso trouxe o correto e disciplinado Dunga de volta a Seleção. Não quer dizer que não hajam bons técnicos como Muricy e Tite, mas consolida que estamos muito atrás do cenário futebolístico europeu. No futebol, além das motivações e das habilidades dos jogadores, só há uma característica básica que muda uma partida de futebol: a composição dos espaços com ou sem a bola, e neste momento as mobilidades de jogadores e de esquemas durante as partidas são o que conquistam vitórias. Treinadores no Brasil mesclam bons trabalhos com trabalhos ruins e médios, dependendo cada vez mais de circunstancias não táticas, como o grupo de jogadores, a motivação dos atletas. Com exceção talvez, do grande time brasileiro atualmente, o Cruzeiro que possui um arsenal de atletas e um treinador em ótima fase (Marcelo Oliveira).

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Pra não dizer que não falei de racismo no futebol.

Não é novidade, mas é a nas agendas e assuntos da mídia esportiva brasileira. Acontece todo dia, principalmente nos estádios europeus e repercute cada vez mais no Brasil, com episódios como na Arena, mas que aconteceram sempre nos estádios brasileiros. Como nas ruas. A opinião de especialistas da mídia esportiva pouco vale neste cenário, acredito, em uma situação muito mais complexa do que a condenação de um clube ou de uma pessoa.

Inegável ao meu ver que as contestações e apelações  á decisão feita, apesar de fazerem parte de um modelo democrático, soem infrutíferas e um tanto difíceis neste momento. Apesar de estranho a exclusão do Grêmio, que há pelo menos dois anos vem praticando ações institucionais contra o racismo, é um exemplo, talvez a ser seguido. Fundamental é não isolar um ato de racismo. É contextualiza-lo e entende-lo como um processo social que se alimenta do cotidiano. Como a homofobia, a transfobia e outros preconceitos como o de classe.

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É avassaladora a presença de ex jogadores de futebol nessas eleições, seguindo uma tendência até certo ponto razoavelmente antiga (dentro da nossa jovem democracia) mas impulsionado pelo sucesso (em questão de visibilidade na mídia política e nos partidos) de exemplos como Romário e Danrlei no cenário nacional. Com todo o direito que a democracia concede.

Porém a memória afetiva de grandes atletas não pode de maneira alguma ser critério dos torcedores-eleitores nas urnas. Efeito inconteste da falta de oportunidades pós carreira, nomes do esporte por inúmeros motivos (dentro deles muitos sinceros) se multiplicam nos partidos. A minha opinião é clara e simples: jogadores como Paulo André e Alex provaram que a atuação política do jogador não deve se atrelar aos cargos políticos. Aliás, ela é mais importante inclusive fora das urnas no dia a dia da profissão que como todas tem suas mazelas profundas.

 

Por Chico Guazzelli