CRUZANDO CHECKPOINTS

A LARGA FRONTEIRA PARA OS PALESTINOS QUE TRABALHAM EM ISRAEL*

As luzes ofuscantes das torres, os corredores estreitos cercados por barras de metal e o cinza esmagador por todos os lados podem fazer um visitante desinformado pensar que está entrando ou saindo de uma prisão. Isso não é uma coincidência. Checkpoints parecem ser projetados para fazer você se sentir indesejado, no lugar errado, como um criminoso tentando escapar para a terra prometida.
Nos dois maiores checkpoints da região – Qalandiya, no caminho entre Ramallah e Jerusalém e o Checkpoint 300, entre Belém e Jerusalém – a mensagem de intimidação para aqueles que cruzam o lado israelense está impregnada no ar: você não é bem-vindo.

A partir da década de 1990, especialmente com a violência associada à segunda Intifada (2000-2005), Israel criou centenas de barreiras nas estradas e checkpoints – postos de controle fronteiriços. A maioria das restrições de movimento foram introduzidas como medidas temporárias para conter a violência palestina. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), em relatório de 2013, indicouque a maioria destas restrições se manteve mesmo após a melhora das questões relativas à segurança e após a cooperação entre a Autoridade Nacional Palestina e o governo de Israel.

Além disso, houve mudanças nas táticas de resistência palestina na Cisjordânia, hoje concentradas em greves de fome dos prisioneiros e em resistência não violenta em vilarejos como os de Budrus e Al Twani. Segundo o jornalista israelense Noam Sheizaf, antes da última ofensiva em Gaza deste ano, a situação na Cisjordânia estava “relativamente calma”. O objetivo da política da Autoridade Nacional Palestina em coordenação com Israel era prever ataques a israelenses, política que atingiu seu auge em 2012, ano em que nenhum israelense foi morto na Cisjordânia. Essa foi a era da chamada “ocupação barata” – quando a Autoridade Nacional Palestina era financiada pelos Estados Unidos e União Europeia, sendo Israel a maior beneficiada por isso.

Qalandiya está 10 quilômetros ao norte de Jerusalém e separa o extremo sul de Ramallah do extremo norte de Jerusalém, composto pelos subúrbios árabes de Al-Ram e Beit Hanina, considerados território israelense. Entre 2005 e 2006, um Muro de Separação foi erguido entre o bairro árabe de Al-Ram, e em volta do checkpoint de Qalandiya, criando uma divisão física de 8 metros de altura entre a Cisjordânia e Israel. Em 2006, Qalandiya se tornou uma das dez barreiras oficiais de passagem para dois milhões de palestinos. O Exército de Israel denominou Qalandiya como um terminal.

De acordo com pesquisa da OCHA, em 2011 os palestinos viviam com 522 restrições de movimento, incluindo bloqueios de estradas e checkpoints, comparado com 503 no ano anterior. Duzentos mil palestinos são obrigados a viajar distâncias de duas a cinco vezes maiores do que em condições normais por conta destas restrições. Além disso, 2,4 milhões de pessoas na Cisjordânia lidam com empecilhos diários de circulação.

Os trabalhadores palestinos com permissão de trabalho no território israelense são um dos grupos mais afetados pelas restrições de movimento causadas pelos checkpoints. De acordo com a ONG israelense Kav LaOved (Linha Direta do Trabalhador), em torno de 28 mil palestinos da Cisjordânia tinham visto de trabalho em Israel no final de 2013. As áreas predominantes de atuação são na construção civil e agricultura, atividades econômicas que a maioria dos cidadãos israelenses rejeita devido à baixa remuneração.

Obter um visto de trabalho é uma tarefa complicada – o aplicante deve ter mais de 28 anos, ser casado e com filhos, além de uma “ficha limpa”, ou seja, ele ou qualquer membro de sua família não podem nunca ter sido presos. O processo consome tempo e custa caro. Quando a permissão é concedida, ela é enviada ao escritório do Ministério do Trabalho da Autoridade Nacional Palestina que a entrega ao trabalhador.

Entretanto, a real maratona começa após a concessão do visto. Os palestinos da Cisjordânia, que vivem em sua maioria a apenas alguns quilômetros de distância de seus locais de trabalho em Israel, passam horas se deslocando por conta dos checkpoints e barreiras. O seu visto geralmente tem um prazo – o trabalhador deve cruzar o checkpoint em um número limitado de horas. Do contrário, ele não terá autorização para passar e, consequentemente, não poderá trabalhar naquele dia.

Para que situações assim não aconteçam, os palestinos precisaram se adaptar: um trajeto que, em condições normais, levaria uma hora para percorrer, acaba levando duas, três horas. O dia começa muito cedo. Às 5 da manhã, no Checkpoint 300 e em Qalandyia, a cena se repete diariamente. Centenas de trabalhadores descem correndo de ônibus e vans em direção à entrada dos checkpoints, na esperança de pegar uma fila um pouco menor. Os atrasados, que estão com o prazo de passagem prestes a expirar, contam com a empatia dos colegas para que possam passar na frente. O espaço entre as grades é tão pequeno que muitos se penduram na chance de conseguir um lugar melhor. Antes de o sol nascer, centenas de homens ficam de joelhos no concreto para a reza matinal.

Mohamed tem 48 anos e cruza Qalandiya todos os dias às 5h30 da manhã. Trabalhando como eletricista na construção civil em Jerusalém, ele sustenta sua esposa grávida e mais sete filhos que vivem em Jenin. “Não havia trabalho em Jenin, então vim para cá”, diz. Ele mora em Ramallah com outros seis homens em um apartamento de 100 metros quadrados. De vez em quando pode visitar a família nos finais de semana. “Antes do Muro, era mais simples. Agora é tudo complicado”, conta.

De acordo com o Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel (PAEPI/EAPPI) que, entre outras atividades, monitora o fluxo dos principais checkpoints na Cisjordânia, 1600 pessoas cruzam Qalandiya entre 4h30 e 7h30 da manhã, horários de pico.

O Estado de Exceção que o Muro de Separação e a ocupação mantêm nos territórios palestinos sufocou o desenvolvimento da economia local, acarretando o surgimento de uma economia informal junto aos checkpoints. Palestinos dos dois lados do Muro tiveram de encontrar alternativas para manter suas famílias. É comum encontrar diversas tendas ali vendendo chá, café e lanches aos apressados trabalhadores.

De domingo a quinta-feira, Ameen Jebreen, de 33 anos, acorda às 3h da manhã para trabalhar no Checkpoint 300 em Beit Jala, ao lado de Belém. Ele mora em Tekoa, vilarejo localizado 12 km ao sul de Belém. Quando o fluxo de pessoas indo para o trabalho diminui, em torno das 9h da manhã, ele volta para casa. “Minha noite é meu dia e meu dia é minha noite”, diz. Ameen gostaria de trabalhar do outro lado do checkpoint, em Jerusalém, mas não pode. “Os que têm visto de trabalho são pessoas de muita sorte”, diz, ao servir seus clientes.

Em 1999, Ameen foi preso por jogar pedras em soldados israelenses. Ele conta que, no mesmo dia, sem nenhum aviso prévio, uma escavadeira da administração civil israelense na Cisjordânia apareceu na propriedade de sua família para construir uma cerca elétrica em torno do assentamento judaico de Tekoa. Com 19 anos, Ameen passou dois anos preso, e, segundo relata, os dois primeiros meses sofreu tortura em uma sala de interrogatório.
Para muitos palestinos que vivem do outro lado do Muro, a economia informal proporcionada pelos checkpoints é o único meio de sobrevivência. Anuan Abusama, sociólogo formado pela Universidade de Belém, trabalha como taxista no lado israelense do Muro. Nascido em Belém, tornou-se jerusalemita ao casar trinta anos atrás. De acordo com Anuan, mesmo com status de residente israelense, é impossível encontrar um emprego no meio acadêmico. “As universidades de Jerusalém preferem os israelenses judeus. Eu desisti de encontrar um emprego como professor há muitos anos”, conta.

Quando o Muro foi construído, em 2002, ele começou a trabalhar como taxista ao lado de Qalandiya, levando os trabalhadores que acabam de atravessar o checkpoint a seus locais de trabalho. A viagem a Jerusalém custa 50 shekels (R$ 32,70). Já a Tel Aviv, 300 NIS (R$ 196,20). “Consigo o suficiente para viver. Preferia trabalhar como professor na Universidade de Belém, mas se nos mudarmos para a Cisjordânia por mais de seis anos, perdermos o direito de voltar a Jerusalém. A família de minha mulher vive lá, não podemos fazer isso”, explica.

Qalandiya: uma porta para o mundo

Antigamente, Qalandiya era um pequeno vilarejo localizado na estrada entre Ramallah e Jerusalém. Hoje, em torno de mil pessoas vivem na região. Além disso, Qalandiya também era um aeroporto. Em um curto período de tempo nos anos 30, ali se encontrava o único aeroporto ativo durante o Mandato Britânico na Palestina usado pelos militares ingleses. Era também o único aeroporto nos territórios controlados pela Jordânia.

Na década de 1950, Qalandiya foi renomeada e passou a chamar-se Aeroporto de Jerusalém, tornando-se um aeroporto civil, sob controle jordaniano. Em 1967, com a Guerra dos Seis Dias, Qalandiya foi anexada a Israel e passou a fazer parte da cidade de Jerusalém. Em 1969, Israel reabriu o local como aeroporto doméstico com o nome de Atarot.

Com a explosão da Segunda Intifada, o aeroporto foi fechado em outubro de 2000 e transformado em base militar. Durante as negociações de Camp David, os palestinos pretendiam construir ali um futuro aeroporto internacional. Como o aeroporto está do lado israelense do Muro de Separação, isso se tornou apenas um sonho.

Se no passado, o Aeroporto de Jerusalém era uma possível “porta para o mundo” aos palestinos, hoje, o checkpoint de Qalandiya é no que ele se transformou.

*por Gabriela Korman, de Beit Sahur, Cisjordânia / Fotos: Plínio Zuni