DEMOCRACIA, CAPITALISMO E COMUNISMO…

…UMA AULA COM OS VEREADORES*

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 Palavras só existem quando ditas. Atualizam-se mais ou menos dependendo de  quem diz, de onde diz, para quem diz. Sapato é uma palavra, por exemplo, e  sapateiros podem nos falar, entre muitas outras coisas, sobre o que são sapatos. É  bem possível que aquilo que o sapateiro diz ser um sapato seja aceito como um  sapato. Mas sapateiros também podem consertar sapatos sem nos explicar nada. É  justo. Médicos e xamãs podem, por ventura, nos explicar o que é a cura. Ou  simplesmente nos curar, silenciosos, obtusos, com auxílio da deslumbrante crença  que temos neles. E agradecemos.

 Os vereadores, por sua vez, diferentemente dos sapateiros e dos xamãs, não podem  ficar indiferentes à defesa pública de suas ideias. Afinal de contas, disso dependem  seus votos, seus financiadores, a matéria que sairá no jornal e, especialmente, os  interesses que conseguirão defender por meio da aprovação de leis. Sim, vereadores  passam bastante tempo criando e revogando leis.

 Em Porto Alegre, 36 vereadores, representando 1,4 milhão de eleitores e não  eleitores, reúnem-se semanalmente na Câmara e, do alto da tribuna, defendem ações, contestam regras, pedem apoio, fazem acordos, definem o certo, o errado, o justo e o injusto. Atualizam, assim, dezenas de palavras, entre elas a própria “democracia”. Criticam o capitalismo, criticam o comunismo, criticam o governo e criticam a oposição. Votam nomes de ruas, becos e avenidas e moções de apoio.

Agora, entre todo o trabalho burocrático e mais ou menos democrático, seria possível, por exemplo, comunistas explicarem o comunismo? E capitalistas explicarem o capitalismo? E todos eles explicarem a democracia, isto é, definirem aquilo que defendem? Resumirem aquilo que permite que estejam ali? É isso que o Tabaré foi a campo descobrir, entrevistando, sem aviso prévio, sete vereadores, entre alguns mais votados e com maior destaque em seus partidos e na mídia.

O aprofundamento desses termos cabe aos cientistas políticos. A ideia, aqui, é desvelar ideias aos eleitores e provocar, nos vereadores e em nós mesmos, a reflexão sobre nossas posições. As definições mais “certas” ou “erradas”, excluindo-se ao máximo os floreios e as fugas da proposta, estão aí, atualizadas. Confundindo pra te explicar ou explicando pra te confundir?

A democracia é a gente ouvir a todos, permitir que falem, participem e principalmente que tenham direito à opinião. A Câmara é um exemplo de democracia quando permite que a minoria exerça o poder.

O capitalismo é o mercado, né? Dizem que é o mercado. Na verdade, o capitalismo é as pessoas tentando ganhar vantagem financeira em cima de outras. Isso desde que o mundo é mundo. Desde o escambo era assim. Capitalismo é a forma mais nefasta que existe no mundo moderno de escravizar as pessoas. Tudo que a gente quer tem que ser pago. Desde o entretenimento, a cultura, tudo tem que ser pago. E hoje ele está em tudo.

Na teoria, o comunismo seria uma coisa maravilhosa. Mas nós temos o poder do capitalismo. No comunismo, nós não teríamos a ingerência do sistema bancário, dos juros. Nós voltaríamos a uma sociedade onde todos são iguais, onde cada um escolhe a sua profissão. Uma coisa que pode se dizer meio utópica, né? Eu acho que não existe mais o socialismo, o comunismo, o que existe é uma forma de participação popular.

Democracia: É um governo, pela definição, do povo, pelo povo e para o povo. Ou seja, a participação popular tem que estar desde a gênese do processo, na eleição dos representantes, no acompanhamento das pessoas sobre o parlamentar e na construção dos projetos de lei ou na fiscalização.

O capitalismo é o sistema politico, sistema de governo, em que o capital é o centro de todo o processo, em que tudo visa ao lucro. Nós não coadunamos com o socialismo e com o comunismo, com o capitalismo selvagem, “laissez faire, laissez passer” (deixai fazer, deixai passar). Eu acredito que o trabalho e o ser humano têm que estar no centro do processo.

O comunismo, via de regra, é aquele sistema no qual todos tem acesso igual aos meios de consumo. Aqueles que trabalham mais, que se dedicam mais, que necessitam mais não têm mais acesso que os outros. O que, na nossa concepção, é injusto. Nós temos que dar mais acesso àqueles que se dedicam mais, àqueles que têm mais méritos. Então eu acho que o comunismo se equivoca nisso. Além do mais, todas as experiências comunistas que nós temos são totalitárias.

Democracia é a oportunidade de tu teres escolhas, opções e as mais diferentes opiniões serem ouvidas, chegando a um consenso da maioria.

O capitalismo se baseia muito no capital acima das pessoas.

Comunismo nunca houve na prática, apesar de ter se visto em alguns países… Mas ele se baseia em cima das pessoas, dando mais oportunidades de igualdade. Isso não quer dizer que tu tem que retirar daquele que tenha mais condições, e sim que um número maior de pessoas tenha condições.

A democracia é a liberdade de pensar, de exteriorizar, de agir. Mas não deixa de ter responsabilidades. Essa democracia exige uma cara limpa. Porque se tu quer te manifestar, se tu estás contra o serviço público, vai lá e diz, grita. Quer agredir, quer quebrar, vai e faz, mas responde por isso.

É relativo isso, né? Nós vivemos uma era do capitalismo. E, ao mesmo tempo, nós assistimos movimentos contra o capitalismo. Mas as pessoas não abrem mão das benéces do capitalismo. Então eu penso que isso tá muito mal explicado. É muito utilizado em discurso de campanha. É que nem a questão da ditadura. Ora, eu sou filha de militar com muito orgulho. Não significa que eu seja a favor da ditadura, de repressão. Eu sou contra qualquer estado ditatorial, qualquer tortura. Então são temas que precisam ser mais debatidos.

Igualdade total, divisão de tudo. Defendem na teoria desde que não seja na prática. É muito esse tipo de discurso, da esquerda a favor do comunismo, do socialismo. Mas todo mundo fica aqui, né? Então porque não vão para os países que têm, não só na teoria, como na prática? Digamos assim, eu trabalhei a minha vida inteira, construí meu patrimônio… Vou repartir tudo? Só um pouquinho, eu abri mão de muita coisa na minha vida. Eu, aos 17 anos, estava trabalhando para construir o patrimônio que tive com meu marido. Eu não vejo mal nenhum nisso. Direita e conservadora? Sim eu sou! Com muito orgulho!

Democracia é um sistema por meio do qual nós temos uma representação que mostra o interesse da maior parte, porém respeitadas as vontades das minorias e consideradas as diferenças que existem entre as pessoas. Então nós não podemos ter uma ideia matemática de que democracia é simplesmente a vontade da maioria. É a representação dessa vontade. Respeitar as minorias e também a diversidade que existe em qualquer sociedade humana.

Capitalismo é um sistema no qual os valores financeiros têm prevalência sobre outros valores, inclusive sociais. É onde todos os meios de produção estão na mão de quem detém o capital e explora as pessoas conforme a sua capacidade econômica. Injusto, porque impede a igualdade de oportunidades. O capitalismo tem na historia da humanidade uma importância: a superação da aristocracia. Mas ele tem que ser superado pelo socialismo.

Comunismo: Igualdade de oportunidades e as pessoas recebendo segundo o que produzem e segundo suas necessidades. Bem, isso é uma definição clássica, digamos assim. E eu não digo que igualdade tenha que ser absoluta a vida inteira. Claro que não. Não é tirar de um e dar para o outro. É colocar igualdade de oportunidades. Depois, a vida vai resolvendo essas questões.

Democracia é o melhor sistema político que nós pudemos construir até agora. Parte da ideia de que o que é público é de todos. O contrato de vida em sociedade tem que ser organizado a partir da soberania popular, a partir do direito de cada um de exercer a sua cidadania. Portanto, é um espaço de gestação do novo, um sistema que propicia muito a instalação de direitos porque dá voz e visibilidade para todos e todas. Só não pode ser uma democracia roubada, usurpadora da cidadania – como o atual sistema politico organizado no Brasil em grande medida é usurpador desta soberania do cidadão. Então, não vamos confundir democracia com o sistema político atual que organiza tal participação. Nós achamos que os sistema que é muito influenciado pelo poder econômico e os mandatos são coptados, são financiados pelo poder econômico.

O capitalismo é o sistema no qual há acumulação e os donos dos meios de produção exploram quem vive da força do trabalho. A prioridade é acumulação de capital, o lucro para quem domina esse capital, em detrimento dos direitos de quem vive do seu trabalho, dos trabalhadores.

O comunismo é o inverso disso, é um sistema que procura valorizar e trazer equidade, trazer justiça social no direito que todos têm de trabalhar e de ter como resultado a dignidade para sua vida. As condições básicas, dignas de moradia, de manutenção da saúde. Então, ele procura fazer uma outra organização social.

Democracia: Na sua concepção clássica, é um governo do povo para o povo. Ela pode se expressar de várias formas. A tradicional, representativa, na qual o povo elege os seus representantes. E, mais recentemente, especialmente aqui no Brasil e a partir do Rio Grande do Sul, uma concepção de democracia direta, que atue juntamente com essa democracia representativa. Eu acho que precisamos achar sempre uma mediação entre essas duas… Agora, democracia pressupõe também o império da ordem, o império da lei. Dentro do arcabouço jurídico é que se exerce a democracia.

Nós vivemos um momento de livre iniciativa, não é exatamente um sistema capitalista. Capitalismo ao pé da letra é um sistema financeiro que simplesmente privilegia o capital. Se tivéssemos capitalismo puro, teríamos o rentismo: simplesmente a captação do dinheiro que gera mais dinheiro num processo especulativo sem fim e que, na verdade, o único fim são as pirâmides [sociais], o que acaba ruindo no momento em que a base não consegue mais sustentar quem tá lá em cima. O que nós temos hoje é um sistema de economia de mercado com livre iniciativa que tem tendências naturais, por exemplo, à acumulação. E aí sim é função do Estado intervir, evitando a criação de monopólios, de oligopólios e outros processos, preservando o interesse do consumidor e a defesa daquelas partes que são hipossuficientes, sem que a gente vá para outro lado, que é o excesso de intervenção do Estado.

O comunismo, na visão clássica, é a socialização dos meios de produção com o controle do Estado e sem propriedade privada, como forma de combater a acumulação que seria, na visão primeira lá de Marx e de Engels, fonte de toda a desigualdade. Se a gente for ver no final da revolução industrial, realmente os trabalhadores não tinham leis de proteção, viviam situações de absoluta insalubridade. E aí nasce exatamente daquele cenário um processo de uma visão mais generosa. Daquela visão se dividiram duas linhas. Uma foi a social-democracia. E outra, que teve a ponta-de-lança na União Soviética, o comunismo, que se provou impraticável na medida em que as empresas do Estado eram administradas por uma burguesia estatal, as burocracias dos partidos. Toda vez que se tenta fazer isso, porque é da natureza humana, quem vai administrar são as burocracias dos partidos políticos.

*por Gabriel Jacobsen / Colaborou: Chico Guazzelli / Ilustrações: Johannes Kolberg