O ovo da serpente

Walsh, junto com a Pizarnik e o Macedonio, talvez seja o último dos grandes escritores argentinos do século XX que não recebeu a devida atenção em terras brasileiras. É um contista de linguagem limpa, muito preocupado em disfarçar formas e em tornar o complexo em simples. Harold Bloom diz, em um texto, que há duas escolas de conto, a de Chekhov e a de Borges. Eu iria um pouco além e adicionaria mais um um russo e mais um argentino: Bábel e Walsh (e talvez Kafka, talvez Schulz, mas esse não é o tema de hoje). Além do trabalho literário, Walsh acabou por virar um herói político: e anida consta como um dos desaparecidos d’O Processo. Enfrentou a ditadura sem armas, mas com palavras.

Porém, quero retornar pawalshra anos antes. Walsh era um jornalista. Não um jornalista comum, mas com um tino pela investigação e pela apuração. A década de 50 tinha sido dura na Argentina. Os avanços de Perón foram interrompidos pela sua deposição em 1955. Walsh alinhava o jornalismo com a literatura, já era reconhecido e já havia ganho alguns prêmios. A política ocupava parte importante em sua vida, mas de modo irregular. Era, de certa forma, um autonomista. Entrava em grupos e os abandonava por divergências inconciliáveis. Veio 1956 e uma tentativa armada de trazer Perón de volta ao poder, a qual falhou de modo patético. Nesse ponto, surge Walsh. O golpe malfadado acabara em fuzilamentos ao redor do país. Walsh descobre que um dos fuzilamentos tinha dado errado e havia alguns sobreviventes. Ele, então, parte para a investigação. Recolhe depoimentos, ouve aqueles que deveriam estar mortos.

O resultado é Operación Masacre. Uma reportagem em forma de romance. Ou umromance em forma de reportagem. Não dá pra saber ao certo. As revelações incomodam. Alguns dos fuzilados sequer souberam o motivo da pena capital. Só estavam no lugar errado. A supressão do golpe dentro do golpe fora de uma violência desmedida. Mais do que o conteúdo, a forma é incômoda. O narrador, muito próximo dos narradores dos contos do autor, descreve as situações como se estivesse por lá. Ele não estava. Fala em detalhes minúsculos. Impossível saber o que parte dos relatos e o que parte da necessidade de criar um espaço ficcional. Vale lembrar que na época da publicação, 1957, Borges já tinha desenvolvido o projeto de borrar as fronteiras entre o que é real e o que não é. Apesar de tudo, é preciso acreditar. Afinal, trata-se de jornalismo. Trata-se de uma situação séria. Não é simplesmente um autor escrevendo coisas no conforto do lar. É sobre homens que foram fuzilados.

Operación Masacre, nesse sentido, com sua confusão entre os gêneros, consegue estabelecer uma escrita que é poderosa pela sua teoria geral. E avança, avança muito. A narração dos tiros dados naquele lixão em uma madrugada de inverno questiona a violência do conjunto inteiro. Uma parte que supera o todo. Walsh ainda não sabia das desgraças que estavam nos espreitando. Não sabia da sua própria desgraça futura. Seu romance-reportagem (ou reportagem-romance, enfim) funciona como uma constatação, uma visão primeira, do ovo da serpente que chocaria nos anos 60 e 70. Pound (o fascista mais sensato que já viveu) costumava dizer que o poeta é a antena da raça. Aquele que percebe os meandros antes de todos. Com Walsh, temos a confirmação do dito.

 

Por Bruno Rodrigues