De corpo e alma

O músico Hermeto Pascoal foi entrevistado na edição #8 do Tabaré. Confere a entrevista dada para Ariel Fagundes e Tomas Piccinini na edição de dezembro de 2011:

Tem que pensar rápido para acompanhar a fala ligeira e cantada de Hermeto Pascoal. Apesar de os gaúchos insistirem em chamá-lo de “Hermêto”, seu sotaque alagoano puxado revela em pouco tempo que o “e” costuma ter som aberto e o “não” soa igualzinho ao “num”. Nós conversamos em um hotel de Canoas após almoçarmos um espeto-corrido de beira de estrada na mesa ao lado da de Hermeto, que comia anonimamente com sua esposa e parceira musical Aline Morena e os demais companheiros de banda.

O fato de ser músico profissional há 60 anos, aclamado no mundo inteiro por fãs de jazz e de música brasileira, comumente tido com um gênio, desvanece frente à simplicidade e simpatia de Hermeto. Os 75 anos que ostenta interferem pouco na sua aparência, pois os longos fios de seus cabelos e barbas já são brancos há tempos (frutos do albinismo), mas interferem ainda menos na sua presença de espírito.

Debochado e brincalhão, passional e explosivo, o homem aparenta estar mais vivo do que nunca. Por 46 anos, de 1954 a 2000, ele foi casado com Ilza da Silva, mãe de seus seis filhos, que faleceu de um câncer no pâncreas. Desde 2003, mora com a Aline, uma bela mulher, um tanto mais nova, que coassina seus dois últimos discos, além de ter convencido Hermeto a gravar seu primeiro DVD e a publicar uma carta em seu site rompendo de vez com as gravadoras.

Em reverência eterna ao Agora, Hermeto Pascoal é lúcido como um cristal. Muito do que diz esgaça os limites impostos por uma visão mecanicista da existência. Mas o que alguns chamam de transcendência, nada mais é do que a realidade que ele vivencia desde a tenra infância em meio à mata do Alagoas.hermeto

 

 

 

Tua iniciação musical se deu na Natureza, né?

Sim, nasci num bairro de Lagoa da Canoa. O bairro tinha umas 15 casas e a cidade tinha 20. Lá minha vida era no mato! Eu saía de casa e já tchiu (assovio gesticulado), ia estudar minha gaita ponto. O resto era no mato tocando com tudo que eu encontrava, desde pedra até soprar com folhas, ir pra beira da lagoa tocando… Quando tava chovendo eu gostava mais de tocar com os sapos, eles vêm todos, cantam mais. Tinha árvores que, quando eu chegava, dava a primeira nota e os passarinhos vinham, como se fosse comida. Enchia de passarinho! Meu pai tinha 200 cabeças de gado e aí aconteceu a mesma coisa: eles me viam e já vinham pra cerca, ficavam balançando o rabinho. Eu tocava à vontade e eles vinham só pra escutar o som.

Quando eu descobri os instrumentos, descobri a inteligência do animal e o preconceito que o povo tem com eles. Até nas religiões que falam que animal tem zumbi, que não tem espírito. O animal tem espírito e tem uns que tem um espírito super adiantado! Tanto quanto o ser humano. Eu descobri isso na prática. Eles não querem saber, querem sentir as coisas. Deus queria (não deu, nem Ele conseguiu) que nós falássemos os mesmos idiomas. Os animais falam o mesmo idioma. E quanto eles gostam de música, sabe? Eu dei a ideia de dedicar um dia pros animais andarem pela cidade, montarmos uns palcos e fazermos shows pros animais.

Essa tua sensibilidade se desenvolveu desde pequeno?

Eu já nasci com essa percepção. Quando minha mãe tava conversando eu dizia, com aquela vozinha de menininho de sete anos: “Mãe, a senhora tá cantando!”. “Quê isso, meu filho? Tá ficando louco? Tô conversando aqui” – que é justamente o trabalho que faço chamado Som da Aura. A mesma coisa que faço com os animais, fazia com as pessoas (com a voz, com o que elas diziam). Porque eu fui crescendo e vendo que o verdadeiro cantar de nós todos é a fala. Aqui é o meu cantar, o que eu tô dizendo aqui. O que você fala. O que você pergunta. Se eu fizer o som da sua aura, você se esquece até de me agradecer porque é um negócio tão seu que você não sente nada que eu fiz. Você é o músico, entende? Eu só ponho o acompanhamento [instrumental], só.

E tá evoluindo muito, o Som da Aura já vingou no mundo inteiro. Tem músicos fazendo, uns eu procuro dizer o que é que eles deveriam ter feito. Por exemplo, a voz grave tem muito harmônico, tem lugar que fica abstrato demais. Tem que dar um risquinho com o som, fazer um trrrannn, e blurnnn (imitando flauta). Recursos que tem na pintura, né? Música também é pintura. Eu não me inspiro na música pra fazer música. Não sou trouxa de me inspirar no óbvio. Como eu acho que tudo é música, tudo é música mesmo! Ninguém consegue me provar o contrário.

 

Na medida em que tudo é musica, existe música boa e ruim?

Claro. Existe o bom e o mau pensamento, ninguém vai dizer que não. Pode-se dizer: “Mas às vezes é mau pensamento pra um e não é pra outro”. Não. O que é mau, é mau. Como na música. Quando é mal temperada, se você botar muita pimenta, ou muito sal, todo mundo vai achar que tá salgado! A não ser um trouxinha que queira dizer: “Não, mas eu gosto salgado”. Mentira! Depois vai beber água sem parar. A mãe da música, pra mim, chama-se harmonia, são os acordes. Eu não gosto dessa música que vem dos Estados Unidos pra cá só pra ganhar dinheiro. Por exemplo, lá no Nordeste tem dois caras tocando ganzá, improvisando, dois violeiros criando, e os caras substituem isso por rap, substituem por essa outra, como é o nome….

Funk?

Funk… Mas tem outra que é parecida com o rap, que botaram um nome muito louco.

R&B?

Essas coisas! Tinha que ter uma lei. A música que faz mal pra alma é pior do que a droga, o crack, do que tudo isso. Isso aí tinha que ser proibido mesmo! Não é censura não, tinha que ser proibido. E tão ensinando nas periferias pras crianças! Tão tirando as crianças de uma droga pra outra que é pior pra alma. Esse que é o problema. A música, ou é ruim ou não é. O cara que tá fumando maconha não vai dizer que é ruim, ele vai dizer que é bom, não é isso? Então, o cara que tá escutando uma música dessas também tá dizendo que gosta, né? “É, essa é boa” (imitando um viciado). Mas o que é ruim, todo mundo sente. Só se cala quem quer. Eu não uso droga porque eu já sou a droga, e não uso política porque a minha política é a música.

E a tua religiosidade vem de uma tradição familiar?

Sim! Eu ia pra igreja, minha mãe era cantora do coro. Meu pai dizia: “eu não preciso de padre, ele vem todo dia beber na minha bodega”. O padre bebia cachaça na bodega! E levava um vinho pra botar no cálice e dizer que tá tudo bem. Vendo isso aprendi a não censurar ninguém. Deus fala: “Faça o que você mais gosta na vida que é a sua religião”. Meu pensamento é esse. Pra isso, aprendi a não ser contra a religião de ninguém, mas tampouco a favor. Porque eu não vou deixar de ficar tocando meu piano pra ir escutar o padre falar besteira na igreja. Você acha que eu sou maluco!? Tenho é um respeito incrível por tudo.

Eu não desenvolvi o saber, quase nada, tenho é o sentir. Sempre acho que, se eu não sinto, vou saber pela metade. Por que eu falo bastante com Deus? Porque Deus diz pra mim. Só que o meu Deus é Aquele do hoje. Eu não quero saber do Deus do amanhã, que eu não conheço ainda. O ontem já passou. Minha religiosidade é através da música e do povo e das coisas que eu vejo no mundo.

As religiões me convidam muito, todos que vocês possam imaginar me respeitam. Mesmo com essa opinião minha, eles me respeitam! E na minha casa teve de tudo! Há uns dez anos, meu irmão Manoel virou crente, e crente mesmo. Depois a mamãe, com aquela bondade de mãe, achou que tava deslocada, foi na igreja com ele e virou crente também, morreu crente. Minha filha na época era macumbeira, eu ia na macumba, levava instrumento pra tocar, os caras não queriam que eu botasse os acordes, eu dizia: “Não, mas é só isso…”.

E depois do meu irmão, a Ilza [sua esposa na época] também virou crente! Aí você não sabe da maior. Chegou o dia de batizar a Ilza, na nossa casa tinha uma piscininha, e os crentes: “Aqui é um lugar muito bom pra batizar a irmã”, já chamando ela de irmã, né… (mal contendo o riso). Os caras vieram com um órgão pra tocar aquelas músicas de igreja e eu peguei um cavaquinho, cara… (risos). Botei maior contraste em cima do cara! Tig-dig-dig-digdum (imitando um cavaquinho alto), depois pegava o oito baixos [tipo de sanfona] e tocava uma coisa bonita, moderna, e o crente, só pra eu não atrapalhar o negócio: “Você sabe que tá bonito isso aí com o hino?”, e eu: “Opa, que maravilha!”.

Ela se batizou, depois veio o câncer num lugar dificílimo que é o pâncreas. Aí quem foi que veio lá pra casa? Encheu de crente! Tinha um que dizia: “Eu rasgo a Bíblia se a irmã não tiver curada!”, falando com emoção, sabe? Era a hora que eu conversava com Deus: “O Senhor sabe que eu tô aqui, mas não tô acreditando em nada disso, tenho que fazer a minha parte pelo menos pra não dizerem que eu não tava aqui”. Como quem tava dizendo: “Se ela tiver que morrer, ela vai morrer”. Eu tava com esperança, mas pra ficar junto com os outros. Na minha consciência espiritual, se Ele não quisesse, não ia ter nada disso. Aí na hora do crente ir embora, ele diz pra patroa: “Você sabe, né? Você tem que ter fé…” – jogou a responsabilidade, né!? A mania é justamente essa, falam que vão te curar e depois dizem que, se não tiver fé, não vai ser curada. Já se desculpando, não é isso? Aí a patroa não deixou pra lá, que ela não deixava pra lá mesmo, era uma pernambucana decidida, e disse: “O senhor não leva a mal não, mas ninguém aqui tem mais fé do que eu. Eu é que tô doente”. Aí a minha filha mais nova chorou em prantos: “Minha mãe tá salva! Graças a Deus, minha mãe tá salva!”, e ficou acreditando em tudo isso. Eu até subi no piano depois e fiz uma letra que diz: “Quando Ele chama, não tem jeito não / Nem a fé segura a Sua razão”. A partir desse dia, aprendi a me desligar completamente da fé e ter esperança. Se você tiver esperança, você não é egoísta, não tá exigindo de Deus, como esse crente palhaço tava.

Quando a Ilza faleceu, eu tava viajando pra Dinamarca. Na minha volta pro Brasil, foi espetacular. Porque quando eu cheguei em casa, o caixão tava na garagem. E os filhos, ninguém queria entrar primeiro na casa! (risos) Achando que teriam que cuidar de mim… Eu sou um cara espiritualista e realista. Não tenho tristeza, tenho uma realidade tão forte em mim que, se eu chorar, não vai mudar nada. Penso na pessoa do outro lado, como eu levava ela pro banheiro, sofrendo com o corpo já acabado. Todo mundo num sacrifício danado. Que alívio, ela se foi! Pelo que ela plantou na Terra, ela está colhendo lá, de um jeito que Deus sabe e só ela. Mas eu disse: “Deus, nunca vi mãe nenhuma gostar dos filhos tanto quanto a Ilza gostava, e eu já fiz tanta coisa no mundo que eu poderia ter morrido tranquilamente”. Aí Deus falou: “Mas se você quiser ir, Eu te levo. Pode ir agora mesmo”. E eu: “Não, agora deixa eu ficar mais um pouquinho”, já que eu fiquei, né?!

Tu sente que já cumpriu teu papel aqui, na história da música?

Não, nesse dia é que eu pensei assim. Sinto que estou mais leve do que antes. Porque eu posso morrer agora, eu posso morrer agora aqui. Se eu morresse aos 30, 40 anos, ia chegar no céu, botar um ringue, e ia lutar com Deus. Mas toda vez que eu pego um instrumento pra tocar, um papel pra escrever, a hora que começa um show, nunca é como se eu estivesse fazendo uma coisa que eu estou acostumado. É sempre novo. Por isso digo que eu vivo sempre aqui (batendo na poltrona), o presente.

E como a idade modificou a tua música?

A idade é a maturidade, né? Maturidade espiritual. Eu não me sinto cansado. O que me segura muito é minha mente, parece que ela vai esticando. Não fica aquela coisa cansada. Claro, se eu quiser subir numa árvore hoje, eu subo! Mas tem que me botar num guindaste. Agora, a mente, a alma, tá maravilhosa. Corre muito mais rápida, mais consciente. Depois dos 60 anos, a mente começou a correr, e sem pressa! Meu espírito anda pelo mundo, tenho a influência linda e espiritual do mundo inteiro. Quando eu tô compondo, a mente tá rodando! E entra as outras galáxias, não pensa que a Terra tá desligada disso.

Sabe por que a minha cabeça não explode? Porque eu não me concentro. As pessoas que tem problemas no cérebro ficam se concentrando. Eu, pelo contrário. Aqui (apontando pra cabeça) tem buraco em todo canto. Muitos músicos tiveram problemas na cabeça, o próprio Edu Lobo quase morreu. Quando esse pessoal tinha isso, eu ficava pensando, como será o meu [cérebro]? Por exemplo, eu sinto um negócio no ouvido direito roncando, aquele uhhh, sabe? Mas não dói. Qualquer coisa que não dói, eu não fico nervoso. Fui no médico e falei: “Doutor, eu não quero tratar isso, pra mim o som tá demais, tá gostoso”.  Aí o médico, pô, fica em dúvida: “Será que esse cara é doido?”. Faz tipo um zumbido, mas é um som. E é um trombone, tem hora que parece um flugelhorn [tipo de trompete mais grave]. Tem dia que ele tá mais baixo e eu sinto falta. Me levaram num lugar onde as moças põem água morna pra lavar o ouvido, aí mexeram nesse aqui (mostrando a orelha esquerda), que não tinha nada, e agora tem umas cachoeiras: chhh, chhh… O pior não é isso, já peguei um gravador e botei no ouvido. Mas não grava nada. Eu queria mostrar pros músicos. Eu vivo com isso, não me atrapalha em nada.

E agora vou falar da novidade. Já fiz o disco “Eu e Eles”, que eu dediquei aos instrumentos, agora eu quero agradecer ao meu corpo. Principalmente o interior dele, o som das artérias. Eu tive na UTI pra uma angioplastia [cirurgia de desobstrução arterial], e eu fiquei três dias no céu. Toda hora eu tava rindo. Botavam aquele aparelho pra pressão e eu escutava tudo, até quando o médico mexia na veiazinha, fazia um som.Todo mundo com medo e eu cheguei pro doutor: “Não é ironia não, mas será que eu posso pagar para vir pra UTI de novo? Mas pra ficar aqui e escutar esses sons, queria gravar eles”. Ele nem respondeu porque é uma coisa que ninguém espera. Mas esse trabalho vou chamar de “Corpo e Alma”, eu de corpo e alma. Vai ser assim: vou me deitar com a pança para cima e vou bater. O som que tem lá dentro é um céu no corpo. Cada lugar tem uma riqueza de sons maravilhosos. Eu não podia deixar de dar essa notícia, só peço que não tentem imitar, daqui a pouco você vai escutar: “Eu gravei o intestino grosso”, tem uns imitadores que fazem isso, né? Tem nego falando: “Agora eu vou levar uma chaleira para tocar”, dizendo que foi o primeiro a fazer… [Segundo Aline Morena, o disco novo já está em produção e sairá no início de 2012].

No teu site tem uma carta que diz: “Eu Hermeto Pascoal declaro que libero para os músicos do Brasil, e do mundo, as gravações em CD de todas as minhas músicas que constam na discografia deste site”.

É. Ali ó (apontando para a esposa), ela que fez comigo. Foi boa essa pergunta que é pra confirmar que tá certo isso aí. (Se exaltando) Porque rapaz, não é brincadeira não, viu?!

Aline Morena: Só que, se você ligar pras gravadoras, vão te cobrar mais ou menos R$ 1 mil por uma tiragem de mil cópias. Mas o Hermeto recebia muito pouco disso, aí rompeu, os contratos não valem mais. Eles não aceitaram e continuam cobrando. Você tem que mandar um email pro site [do Hermeto] e pedir uma autorização específica pra gente assinar. Mesmo assim a gente faz!

Tu veio de uma época em que o consumo de música era bem diferente…

Sim… Eu acho que a Internet, pra quem souber aproveitar, chegou numa hora divina. Quem tiver um trabalho bem feito, tem chance. Quando a Aline botou a carta na Internet, nenhuma gravadora teve peito pra falar comigo, elas não têm moral pra falar comigo, pra dizer nada! Nem por escrito nem pessoalmente. Pelo telefone, eu vou queimar a boca de quem tiver falando. E se tiver pessoalmente leva um tapa!

por Ariel Fagundes e Tomás Piccinini

foto: Martino Piccinini