Diário de Cinema: altinha na beira ou a punheta de bacalhau

 As impressões imediatas sobre os filmes vistos no Festival do Rio. (primeira parte)

  Primeiro dia: dois pra um, dois belos filmes pra um tiro no escuro que errou feio o alvo: Difret, filme etíope, de Zeresenay Berhane Mehari, produzido por Angelina Jolie e baseado em fatos reais. Contra a tradição do estupro, do casamento forçado das aldeias da Etiópia, existe uma jovem advogada feminista com um caso forte nas mãos: a adolescente que mata seu noivo/estuprador e pode ser condenada à morte. Mas a opção desastrada pelo melodrama na meia hora final e a típica corrida atrás da objetividade dos filmes calcados em fatos, escondem o que realmente pode ser forte aqui: a relação das duas personagens com aquele mundo para além da ocorrência jurídica.

 A Princesa de França, do argentino Matías Piñeiro, é ainda melhor que Viola, filme exibido na Sessão Plataforma em Porto Alegre este ano. Praticamente um Hong Sang-soo encontra Resnais, com 67 minutos de encontros e desencontros amorosos, tendo um bilhete de adeus como (telefone sem) fio narrativo. São tantas mulheres envolvidas com o protagonista, em passado e presente ou memórias e devaneios que se embaralham, que só com uma revisão pra conseguir organizar alguma coisa a respeito do filme. E como Piñeiro filma bem, só a primLa Sapienzaeira cena já vale o ingresso.

Fim do dia com o grande Eugène Green em pessoa, apresentando e comentando sua viagem à Itália, La Sapienza Já havia falado sobre a proximidade entre arquitetura e cinema no dia anterior, em palestra na UFF, e o filme escancara a defesa da arquitetura como uma criação humana capaz de promover o reencontro entre o homem e a luz. Depois da sessão, o diretor de fotografia, também presente, comentou que a cena com um longo zoom em direção ao topo da famosa Igreja romana que dá título ao filme deveria ter sido um travelling. Melhor assim: no lugar do movimento encantado, milagroso, tradicional do travelling, há o movimento meio travado do zoom, que revela o homem em ação. Perfeito para um filme que, entre tantas coisas, mostra como apenas o homem é capaz de descobrir-se das sombras que ele mesmo cultiva. No fim de tudo, no meio da bagunça das filas enormes nos guichês dos ingressos, Green completou: é, acho que sou um otimista.

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Segundo dia de Festival. Entre as estrelas de David Cronenberg, que parece estar sempre redescobrindo o horror, e a multidão heroica de Sergei Loznitsa, uma obra-prima menos famosa de Roberto Rossellini: Índia – Matri Bhumi. É um dos seis filmes restaurados do italiano que estão sendo exibidos no Festival do Rio. E talvez o melhor, mesmo tendo concorrentes de peso como Roma, Cidade Aberta, Viagem à Itália e Stromboli.

 Interessante vê-lo no mesmo dia do documentário sobre a insurreição ucraniana. Com o filme de Loznitsa, imaginei que ia descobrir nuances inéditas da complexa questão política do país, Mas, sem problematizar nada, o diretor mostra justamente o contrário. A questão é simples: cansado da submissão ao governo russo, o povo ucraniano quis e conseguiu derrubar o presidente. Há o herói e há o vilão. Sem responder ou lançar novas perguntas, Maidan é um filme de quem acredita no poder da imagem e por mais que fiquem algumas pulgas atrás da orelha, é fato que Loznitsa, com seu maneirismo lumièriano, enquadramentos rigorosos que deixam o mundo livre para acontecer na frente da câmera, consegue vender bem as suas verdades.

E no que acredita Rossellini em seu filme na Índia? Em primeiro lugar, fazer um filme NA Índia e não sobre a Índia. Mas também que no cinema a divisão entre documentário e ficção é uma bobagem. Ao mesmo tempo, a aproximação entre os dois não precisa ser o encontro sempre escandaloso das águas do mar e do rio. No lugar das quimeras monstruosas, a serenidade de quem nunca se deslumbrou com a imagem (essa é a principal e desconcertante herança do italiano pro cinema, que fica ainda mais gritante perto da obra contemporânea de Loznitsa). É dessa forma que retrata, através de quatro histórias (ou seria a mesma? O ciclo da vida se completando? iniciando com o amor, já que Rossellini é ultrarromântico), as transformações da relação entre o homem das aldeias e a natureza num contexto de modernização do país.

O barulho do motor que transforma o ecossistema de uma aldeia, o macaco que é rejeitado pelos seus pares por ter “cheiro de gente”, os elefantes que trabalham como tratores derrubando árvores mas que também se apaixonam, a crença na ação do homem de um engenheiro orgulhoso com a represa milagrosa que ele ajudou a construir. Rossellini voltaria a filmar isso, em outro contexto, no seu filme sobre Descartes: o homem acreditando ser grande num mundo que sabe que ele é pequeno.

Primeiro filme após Ingrid Bergman (a história do engenheiro obstinado com seu trabalho e a esposa infeliz parece até uma recriação da relação do casal), Rossellini lançou Índia em 1959, ano do estouro de seu maior rebento: a Nouvelle Vague. Não é exagero dizer que é mais moderno que as obras iniciais de seus seguidores franceses.

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 A esculhambação, talvez o mais carioca dos estados de espírito, vem sendo a marca registrada do Festival. No sábado, a ideia era ver Jornada ao Oeste, de Tsai Ming-liang, mas o projecionista resolveu colocar um documentário sobre Robert Altman. Quinze minutos pra perceber o erro, mais dez pra trocar o filme, mais dez pra ver todas as vinhetas e publicidades de novo e a sessão já tinha ido para o espaço. O dia, então, ficou pra preciosa revisão de A Princesa de França, de Matías Piñeiro, e dois novos filmes que retratam problemas da convivência familiar.

 Coma Seus Mortos, de Jean Charles-Hue, exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes deste ano e badalado por parte da crítica francesa, pega o protagonista, um adolescente de uma comunidade cigana, entre dois batismos: um literal, o dos pais cristãos que desejam um futuro abençoado (e seguro) para o garoto, e o do tio que acabou de sair da prisão. Protegido por um discurso político, “a culpa é da fome”, o homem levará o garoto a uma intensa noite de iniciação. Filme de uma madrugada só, com um crescendo interessante. Mas infelizmente alguém disse que balançar a câmera e grudá-la no rosto dos atores é filmar realisticamente e o diretor acreditou.

Se a família (ou o fracasso dela, claro, entendendo fracasso como algo amplo, que não impede o carinho e o amor) também é o tema principal, o filme de estreia de Davi Pretto, Castanha, aparece num extremo oposto. No lugar da câmera destrambelhada, os enquadramentos rigorosos, dá pra dizer até teimosos. No lugar de uma noite, várias delas, em cenas quase sempre interrompidas bruscamente. Os cortes sufocam e nada têm a ver com a pressa de contar a história, revelam a rotina cansada e esvaziada de um homem. A noite, aqui, é acima de tudo trabalho. As repetições, os silêncios e os olhares perdidos não deixam dúvidas: o inferno até pode ser uma festa, como diz João Carlos Castanha em determinado momento, mas a morte, presença esmagadora no filme desde a primeira imagem, não é.

 Já se falou, desdenhosamente, que o sucesso de Castanha no circuito de festivais vem de um achado: ter um personagem que por si só já garante um filme. Pura bobagem. Descobrirão os apressados, lá pela quinta madrugada em claro, que a grande personagem de Castanha é sua mãe, dona CeO Franco Atiradorlina

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Escrito pouco depois da sessão de O Franco Atirador. Na saída, os que reencontravam a obra de Michael Cimino e os que viam pela primeira vez, todo mundo em estado de choque. “É o melhor filme do mundo”, a frase se repetia de roda em roda.

 É o melhor filme do mundo.  E ainda teve, na semana seguinte, O Portal do Paraíso e o último longa de Cimino, na única cópia em 35mm que vi no Festival: Em Busca do Sol. 

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Vai ser difícil encontrar outro filme contemporâneo tão forte no Festival quanto o português E Agora? Lembra-me. São as confissões de um comedor de tóxicos clandestinos, esse filme-diário de Joaquim Pinto, realizado durante um ano de tratamento com medicamentos proibidos. Há dois velhos intrusos em seu corpo: os vírus do HIV e da Hepatite C. As consequências, visíveis na pele, nas veias, nas ideias, no isolamento, são tremendas. É um ano de estrago, embora sempre delicado. Mas, ao lado de seu marido, Nuno, e dos cães, também é um ano de amor, de revolta e, como sugere o título, de recordar. Pinto começou a trabalhar como técnico de som nos anos 1970, a década em que o cinema trocou de vez o fazer filmes políticos pelo fazer filmes politicamente. E Agora? Lembra-me está num degrau acima: depois de tantas mortes, de tantos filmes, de tanta AIDS, de tanta Europa, já é preciso sobreviver politicamente.

No mais, para muito além de um bloco de notas encarcerado no eu, o filme reforça o fato de que os cineastas portugueses parecem os únicos realmente capazes de lidar com os pormenores mais importantes da crise europeia, sem comprometer suas crenças poéticas e narrativas. Sabem tudo do lirismo da falência.

Obra-prima do nosso tempo para fechar um domingo mágico, que iniciou com a roleta russa emocional de Cimino e ainda teve a sessão comentada de A Terceira Margem, ótimo longa de Celina Murga, nome forte do cinema contemporâneo argentino, já há algum tempo apadrinhada por Martin Scorsese. Mais revolta: incomodado com o cinismo do pai, dono tranquilo de duas famílias, o misterioso garoto guarda-se firme até que sua irmã, prestes a completar 15 anos, o convida para cantar Rezo por vos, hino de Charly Garcia e Luis Alberto Spinetta. Está aí um filme, aproveitando uma das estrofes da música, sobre morrer sem morrer.

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 A deusa linguagem: Eugène Green, norte-americano naturalizado francês nos anos 1970 (e dono de uma obra extremamente europeia, especialmente pelo modo místico como compreende a Palavra e a Arte), não quer saber de seu país de origem. Recusa até o nome: no lugar de “Estados Unidos”, diz “Barbárie”. Já o produto cinematográfico da América é espirituosamente chamado de “as mexidinhas bárbaras”.

 Segunda-feira foi o dia delas.

Mexidinha bárbara 1: Whiplash – Em Busca da Perfeição, de Damien Chazelle, o queridinho de Sundance da vez, é, na verdade, um pancadão bárbaro. Se o filme está sendo visto como um Nascido Para Matar dentro de um conservatório musical, chama atenção a ausência do Vietnã, ou seja, de algo que realmente possa colocar em crise o fascismo à americana. Para se tornar um grande músico, diz o maestro, é preciso mais do que estudo e trabalho. É preciso ser o melhor. Pensando no modo como Whiplash evolui até seu apoteótico desfecho, mesmo com uma suposta defesa da rebeldia, Chazelle também parece acreditar (especialmente pelo modo eufórico como filma tudo isso) que os gênios são resultado da disciplina militar exigida pelo tutor. Ainda bem que a música é uma arte impiedosa e, de alguma forma, faz o papel do país asiático nessa perigosa história de superação: a rigidez dos métodos de ensino fica evidente nas execuções matemáticas, perfeitas e anódinas. Jazz de branco é coisa do passado, agora a moda é bater palma, como fez boa parte da plateia, pra jazz de soldado.

Mexidinha bárbara 2: Só Deus Sabe, dos irmãos Ben e Joshua Safdie, figuras carimbadas do cinema independente americano. Aqui eles aparecem com uma narrativa sufocante sobre viciados em heroína, baseada em livro autobiográfico da própria protagonista, Arielle Holmes. De início, uma trilha cheia de sintetizadores até engana um filme mais viajandão, menos preocupado em diagnosticar alguma trama. Mas logo a relação de amor autodestrutiva do casal principal e a esperada impossibilidade de sair daquele calvário colocará a obra na vala comum das histórias de viciados. Desde que o cinema norte-americano começou a retratar esses vampiros urbanos de uma forma menos perfumada (penso em Morte Silenciosa, de Ivan Passer, e Os Viciados, de Jerry Schatzberg, ambos de 1971) a impressão é a de que há sempre o mesmo filme, o que não deixa de ser um comentário político sobre o tema: os traficantes mudam, as drogas mudam, o mundo muda, mas os viciados não. É possível fazer outro filme? Se não existisse um Abel Ferrara, ou um Philippe Garrel do outro lado do oceano, a pobreza das narrativas indies de NY nos deixaria com a certeza da negativa

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Dia de conhecer uma raridade de Roberto Rossellini e o novo filme do principal cineasta contemporâneo da África francófona, Abderrahmane Sissako.

 A Máquina de Matar Pessoas Más faz parte de um período interessante do cinema italiano do pós-guerra: passados os anos imediatos dos escombros, o país se permitia sonhar novamente. Cada cineasta lidou com a fantasia ao seu modo e talvez por isso mesmo, pelo temperamento de seu autor, a obra de Rossellini realizada em 1952, ou seja, entre seus melodramas revolucionários, tenha sido guardada num canto mais escuro do chamado neorrealismo. Lembramos sempre de Milagre em Milão, de De Sica, ou de Belíssima, de Visconti, mas nunca dessa pequena comédia moral (com uma mensagem preciosa, diga-se: faça o bem, mas não exagere) sobre um suposto santo que dá a um fotógrafo o poder de matar as pessoas com um simples registro de sua máquina. Todo mundo que não presta começa a morrer: fascistas, agiotas, políticos corruptos… Mas, aos poucos, e Rossellini introduz a questão com um humor bem ácido, o homem percebe que precisará matar a cidade inteira para continuar sua saga contra o Mal.

 Mais importante do que a trama, no entanto, me parece a vontade de comentar, com um olhar de cronista (uma característica forte do cineasta, desde sempre, inclusive no modo como filma), o que acontecia na Itália naquele momento, tendo um pequeno vilarejo litorâneo como uma miniatura do país: a chegada interesseira dos americanos, a sobrevivência do fascismo dentro da polícia, as relações de poder e amor entre famílias tradicionais, a exploração dos pescadores e, é claro, a divinização total do dinheiro, entre ricos e pobres.

 

Saindo da Itália dos anos 1950 para o Mali dos nossos dias: em Timbuktu, Abderrahmane Sissako vai lidar com diversas nuances da invasão da Jihad Islâmica na aldeia que dá título ao filme. É uma obra desesperada sobre resistência, talvez porque flagre o último suspiro de esperança naquele espaço. Fala-se, diariamente, em fundamentalismo religioso. Com uma rara sensibilidade, que faz com que o filme nunca caia num jihadexploitation, sem fechar os olhos para a violência, Sissako retrata uma opressão completamente técnica, calculada. Armada até os dentes, a Jihad, aqui, é como a máfia: Timbuktu não está tão distante de Chinatown. A espiritualidade, em contrapartida, é um dos focos de resistência, assim como a arte, a língua, o futebol, a vaidade. Se não é tão impactante quanto a obra-prima anterior do diretor, Bamako, o filme traz alguma das grandes cenas vistas no Festival: um futebol subversivo jogado sem bola, uma gravação de vídeo frustrada porque o jihadista debutante não consegue dizer as palavras, ou um corte maravilhoso que evita o espetáculo cinematográfico num apedrejamento para descobrir o passado artístico de um dos invasores mais agressivos. Porque TImbuktu também não deixa de ser um filme sobre um mistério: o que leva um homem a Jihad? No lugar das respostas impossíveis, de uma simplificação do tema, Sissako nos deixa com mais perguntas ainda. Belo filme.

Por Leonardo Bomfim