Diário de Cinema: altinha na beira ou a punheta de bacalhau (II)

 As impressões imediatas sobre os filmes vistos no Festival do Rio. (segunda parte)

As mamães ainda no altar mas descendo do trono intocável das mães em dois dos filmes mais comentados do Festival de Cannes deste ano. Vencedor da Câmera de Ouro da mostra Un Certain Regard, Party Girl tem três (!) diretores: Samuel Theis, Marie Amachoukeli, Claire Burger. Antes da sessão, Theis comentou que a vontade era retratar, através das pessoas, uma região pouco conhecida da França, na fronteira com a Alemanha. Mas a ideia, percebemos logo, também é filmar a própria família. A protagonista, uma mulher de 60 anos que trabalha nos inferninhos da cidade e decide casar, é a própria mãe do diretor, que também atua, assim como seus irmãos. É o velho desejo do cinema de não apenas parecer, mas de ser real. O filme tem momentos fortes, especialmente quando a família está reunida, ali os três diretores iniciantes demonstram uma maturidade grande para filmar coisas difíceis, como a dúvida da mulher, pouco antes do casamento, em relação ao amor que sente pelo homem. Mas se o afeto parece ter orientado as escolhas narrativas, ele também é responsável pelo maior problema do filme: a necessidade inesgotável dos rostos. É tudo o que vemos em praticamente todas as cenas, inclusive as não tão importantes dramaticamente. Pra um filme que pretende ser documental, não ter corpo é quase um crime. Mais artifício emocional que um modo de estar próximo dos atores, o excesso acaba justamente anulando a potência expressiva do rosto da atriz-mãe, Angelique Liztenburger.

  Coisas de Festival: sair correndo de um Party Girl e em cinco minutos estar vendo ONÍRICA, novo e decepcionante filme do polonês Lech Majewski, um maneirista à moda antiga, filmando com um rigor impressionante. É como trocar um planeta por outro sem ter tempo para se adaptar à nova atmosfera. Fica claro que a intenção de Majewski é, a partir de um drama íntimo, colocar o país inteiro no divã do surrealismo. Mas seu filme, banhado num simbolismo inofensivo, só revela a dificuldade histórica do cinema para filmar os sonhos, ainda mais com a imagem limpa, sem densidade, do digital.

  Voltando às mães, Mommy, novo filme do garoto prodígio canadense Xavier Dolan, dividiu o Prêmio do Júri com Adeus à Linguagem, de Godard. O dinossauro e o bebê, o mais novo e o mais velho em competição. A idade de Dolan, 25 anos, fica evidente em seu novo filme, calcado na relação entre mãe e filho, duas bombas-relógio com aquele sotaque que só o cinema quebequense nos dá. Um é o espelho do outro, a cópia fiel. Existe um exibicionismo flagrante nos dois, que Dolan filma com uma irresponsabilidade atraente e um domínio pleno.O modo como eles absorvem a vizinha tímida para seu mundo me parece ser quase um comentário metalinguístico sobre a vontade de abocanhar o espectador. Brincando com a imagem e com a cultura pop, Dolan cria um filme de altos e baixos, que explode e acalma junto com a relação de seus protagonistas. No fim, é uma estranha história de amor de mãe claramente filmada por um garoto de vinte e poucos anos com o gosto pelo escândalo (o que não deixa de ser ótimo: quantos cineastas filmaram o amor materno no cinema enquanto jovens?). Nova sensação do cinema ou hype de algumas estações? Não vi os outros filmes de Dolan, mas Mommy fica no meio do caminho, o resultado mais decepcionante para um enfant terrible cheio de energia provocativa.

  Agora o terceiro mundo. Fora dos holofotes, sem oba-oba e com pouco dinheiro, um nome brasileiro vem construindo uma obra sólida nos últimos anos: Cristiano Burlan. Ontem apresentou Hamlet no Festival, um filme que ao mesmo tempo adapta, critica e recontextualiza o texto de Shakespeare, sem que haja nenhuma contradição entre as três vontades. Tem um pé enorme nos cinemas novos dos anos 1960, na facilidade com que sai de um ambiente para outro, de um registro estilizado para outro documental. Esse Hamlet é ótimo pra mostrar como a ideia do filme em processo não anula necessariamente a dramaturgia, a mise en scène. De quebra, o diretor ainda aproxima a tragédia não apenas à contemporaneidade brasileira, mas a seus próprios documentários pessoais sobre histórias de violência, como o impactante Mataram Meu Irmão, lançado no ano passado.

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 A China está próxima! É o que diz uma pichação nas cercanias do cinema. Quase familiar mas ainda incompreensível, o país está sempre chamando a atenção nos grandes festivais. Mais que um fetiche cinéfilo, todo mundo quer saber o que é de fato a China e muitas obras até parecem realizadas com essa missão. É bem o caso de Fantasia, de Wang Chao, visto durante a semana. Nele, o drama da família que descobre uma leucemia em estágio avançado no pai é esmagado pela necessidade, a cada cena, de revelar alguma coisa sobre a sociedade chinesa. No fim, tudo parece distante no filme de Chao, ao contrário de Massagem Cega, de Lou Ye, que como adianta o título, traz a convivência de uma trupe de massagistas cegos. Aqui os personagens são o grande motor do filme, embora a recorrência de grandes eventos dramáticos atrapalhe bastante: é tão bom quando a vida apenas acontece, sem que alguém jorre sangue na tela…

 Carvão Negro

 O ótimo Carvão Negro, de Diao Yinan, surpreende por ter sido o vencedor de Berlim, festival que adora premiar obras fracas sobre temas grandes. Até mesmo pelo título (e pelos comentários, “é um sub-Jia Zhang-ke”), esperava algum tipo de radiografia crítica e poética sobre a classe trabalhadora do país. O primeiro susto bom: a China, aqui, parece de mentirinha, até recriada em estúdio. O segundo: trata-se de um filme de gênero, uma história policial com aquele tipo de personagem delicioso que só existe para (e com) a trama. O terceiro: o desenrolar da história busca menos as surpresinhas e mais a introdução de um crescendo de absurdo, com ecos do cinema coreano contemporâneo (Bong Joon-ho tem alguma culpa aqui). É um dos destaques do Festival.

Já a Coreia do Norte, essa está longe até mesmo para quem tem laços fortes com o país. No filme ensaio Canções do Norte, a sul-coreana Yoo Soon-mi  vai ao país atrás de suas origens. Usando filmes norte-coreanos, imagens de telejornais e outras registradas em viagens turísticas, a diretora faz uma série de perguntas e arrisca algumas respostas, mas destaca a impossibilidade do sonho da reunificação e de determinar quem é esse “país solitário, sem amigos, sem história, vivendo com mitos”. Filme-fracasso, incompleto, mas politicamente corajoso, por identificar que os mitos surgem de dentro e de fora: a Coreia do Norte poderia ser diferente? Sim, mas antes, ela diz, os Estados Unidos precisariam ser diferentes.

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Se novidades francesas como Party Girl e Coma Seus Mortos não animaram muito, os novos de Philippe Garrel e Pascale Ferran estão entre os grandes filmes vistos no Festival do Rio.

  Em O Ciúme, de Garrel, tudo acontece entre dois piscares de olhos, com a narrativa em pequenos sopros, típica de seu cinema. Mas já tem algum tempo, desde Amantes Constantes, que o francês vem lidando de uma forma mais tranquila com o seu grande tema (dá pra dizer, o único): a instabilidade da vivência amorosa. Filme doce, cheio de cenas inacreditáveis, como a do primeiro passeio entre a garota e a nova namorada do pai ou as das crises desse novo casal, motivadas pela falta de dinheiro (poucas vezes vi a pobreza filmada de forma tão direta como aqui). É um filme milagroso de tão simples, e a revisão se faz necessária para ter a certeza de que ele realmente existe. Felizmente vai entrar em cartaz logo.Pessoas-Passaro

 

Pessoas-Passaro marca o retorno de Pascale Ferran ao cinema oito anos após sua ótima adaptação de Lady Chatterley. Se existe algum incômodo, no início, com um certo retrato batido do mundo contemporâneo e seus homens e mulheres da multidão, o modo como Ferran introduz e resolve rapidamente o mal-estar dos dois personagens, um engenheiro de informática bem-sucedido que se sente um “cubo de açúcar se dissolvendo” e a jovem camareira do hotel, leva o filme a um terreno inesperado, o da fábula. A diretora não fica ruminando a insatisfação dos dois: os rompantes são radicais, assim como são suas ressurreições. De alguma forma, o que o filme também proporciona é a ressurreição de um olhar realmente aberto à fantasia, presente tanto numa interminável conversa com a esposa no Skype ou num voo livre pelos céus de Paris. Quando o prazer de fazer cinema encontra o prazer de vê-lo, aí não tem jeito, é obra-prima: Ferran fez o feel good hit do ano.

De quebra, entre eles ainda teve um argentino abusado, Dois Disparos, de Martín Rejtman, comédia modulada pelo humor absurdo que inicia com uma tentativa de suicídio e segue com uma narrativa incrivelmente irresponsável, introduzindo e retomando personagens sem o mínimo compromisso com os manuais, inclusive os de ruptura.

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O olhar do documentarista Frederick Wiseman não é o de quem observa: não há ruídos, sujeiras, muito menos abstrações. A certeza de suas imagens e a naturalidade inacreditável de todos que lá estão, levam seu cinema a um patamar bem mais impressionante que o dos filmes do cinema direto, aqueles em que a câmera parece um caçador afobado tentando flagrar coelhinhos no meio do mato. O mundo acontece e Wiseman está tão inserido nele, que o resultado está mais próximo de uma ficção radical que consegue introduzir dramaturgia cinematográfica no cotidiano dos espaços visitados. Em National Gallery, o diretor nos faz esquecer que estamos numa sala de cinema, num festival, entre 300 filmes e nos coloca durante 3 horas realmente dentro do icônico museu londrino.

Chama atenção o interesse insistente pelos desvelamentos das narrativas das pinturas que os historiadores estimulam aos visitantes. Cada obra é um mundo. Mas também existe a vontade de revelar as narrativas por trás do funcionamento da National Gallery: filmar o corpo em movimento, mas também as artérias. Para além do restauro, da limpeza das obras, da organização curatorial do espaço, o diretor busca entender qual é a grande narrativa por trás do museu. Existe um conflito entre a ideia de fazer o máximo para que as obras sejam completamente acessíveis aos visitantes ou a de buscar um estranhamento, um incômodo natural para quem entra no espaço. Um dos diretores chega a defender o fracasso. Para isso, questiona também a popularização a qualquer custo da imagem do museu. Ao mesmo tempo, existe a questão financeira, a necessidade de uma diminuição enorme no orçamento, uma consequência da crise europeia que Wiseman, montador de mão cheia, aproxima a uma apresentação de uma pintura sobre a queda do Império Romano. Filmar o corpo em movimento, as artérias, o coração vibrante, mas também o cérebro.

No fim da sessão, uma senhora reclamou que “o diretor só deu valor às obras clássicas, que o girassol do Van Gogh ficou num cantinho escondido do filme”. Essa escolha, a de privilegiar artistas anteriores à segunda metade do século dezenove, não é um capricho de gosto e nem só uma constatação de que a maioria do acervo do museu compreende esse período. Porque a sensibilidade do fim do século dezenove, o fim do moderno, ainda está muito próxima da nossa. As angústias de um Van Gogh acontecem no mundo em que ainda vivemos. E Wiseman propõe aqui uma experiência radical, um deslocamento duplo: sair da sala de cinema e entrar na National Gallery, mas também entrar, a partir de inúmeras obras-primas realizadas entre os séculos XV e XVII, num mundo anterior, o da transição pro moderno, regido por outras regras, outras exceções, não tão próximas de nossas vivências (quase todas as obras destacadas são anteriores ao surgimento do museu, detalhe importante). Documentário incrível sobre o funcionamento de uma casa e, ao mesmo tempo, uma celebração ao mistério da arte.

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 O último dia ficou exclusivo para Cavalo Dinheiro, novo filme de Pedro Costa. Seria um atrevimento falar qualquer coisa tendo visto apenas uma vez, mas dá pra cravar: o “Adeus, Fontainhas” do português é a grande obra-prima do Festival, a sessão teve uma densidade espiritual.  

Por Leonardo Bomfim