O lirismo da violência, a violência do lirismo

I

Homero, no passo fundador da literatura ocidental, estabeleceu um dos fantasmas que a assombram desde então, o lirismo da violência. Suas descrições de batalhas envolvem lanças repletas de imagens atravessando a carne, corpos sem vida que se parecem com flores, cicatrizes que formam identidades inteiras. A violência permaneceu lírica em todos os grandes épicos, invadiu a modernidade – Kleist, Baudelaire, Hölderlin, Rimbaud.

 

II

O século XX resumido em uma metáfora: uma cabeça decepada que rola por uma colina como o sol poente.

 

III

Ninguém sabe se Babel foi fuzilado ou morreu de tifo. O que se sabe é que os manuscritos de seu primeiro romance desapareceram durante a prisão.

 

IV
Os crimes de Babel: não compactuar com Stalin, ver em Trotsky a revolução ainda viva e se negar a escrever segundo os preceitos do Estado.

 

V

Babel era um judeu míope e baixinho. Afilhado de Gorky, recebeu dele a lição mais importante: é preciso viver para poder escrever. Seus contos, no clima antissemita de São Petesburgo, eram considerados pornográficos e vulgares. Babel, então, foi para a guerra aprender sobre a vida.

 

VI

Babel aprendeu demais entre os cossacos. Não como um soldado, mas como jornalista. Viu os campos de batalha recheados de corpos. Descobriu que só o lirismo poderia agir contra o terror da morte, da lama e do fedor. Viu outros judeus assassinados, décadas antes do nazismo.

 

VII

Em um conto, um soldado é conduzido ao léu por seu cavalo, para longe do som dos tiros. Em outro conto, um soldado esmaga a cabeça de um cavalo com uma pata quebrada. Em outro conto, um soldado esmaga a cabeça de um ganso para provar que tem algum valor. A violência do lirismo, do mesmo lirismo que combate o terror, destrói a Beleza. Não há mais coisas belas. Há apenas a sujeira.

 

VIII

Da sujeira, emerge a lira. Uma música que toca. A Polônia destruída sendo varrida para dentro da memória de um escritor. Babel, diferente de Homero, não descrevia a violência pelo seu caráter heróico, de formação. Descrevia a violência pelo seu caráter de deformação. Uma est-É-tica da deformação. Das cabeças esmagadas, das cabeças rolando pelas colinas.

 

IX

Ao fim, resta a dúvida de querer saber se o lirismo se esgotou. Se a sujeira ainda pode dar frutos e os corpos, flores. Mas já não existe esperança. Um livro que mancha o próprio sol de sangue destrói a música.

 

X

Babel foi obrigado, pelo Estado stalinista, a guardar silêncio até o dia de sua morte. Estava proibido de ser publicado. Poucos meses antes de sua prisão, estava em Paris. Poderia simplesmente não ter voltado para a União Soviética. Sabia que a volta seria a morte. Babel, porém, voltou. Escolheu morrer pela mão dos algozes, do mesmo modo que faria um herói homérico. Da sujeira, da falta de esperança e do silêncio, Babel conseguiu tirar uma nota última da lira. A violência do lirismo o matou.

Hoje, já ninguém mais morre pela literatura.

 

Por Bruno Rodrigues