Editorial #29

Os confusos e sinceros gritos de descontentamento que entupiram as ruas em 2013 não provocaram um efeito imediato de empoderamento do povo que alterasse o cenário das eleições de 2014. Ainda que tenha restado uma pulga atrás da orelha, ainda que estejamos envoltos em um processo maior de transformação, é inevitável admitir que, mais uma vez, os mesmos políticos, com os mesmos discursos, nos mesmos partidos, de centro-esquerda e de centro-direita, de governo e de oposição, arremataram a imensa maioria dos votos – inclusive daqueles que protestaram.

O jogo democrático tende à estabilidade e à segurança dos direitos adquiridos, incorporando as mudanças sempre lentamente. Parte disso é característica de qualquer democracia, o que evita que o povo seja tomado de assalto por pequenos grupos ou grandes figuras que se considerem acima do bem e do mal: ditadores de esquerda ou de direita. A outra parte disso, que nos interessa, diz respeito, especificamente, às condições da nossa democracia: jovem porque interrompida duas vezes, patrimonialista, personalista e preponderantemente indireta, na qual o cidadão só é realmente necessário de dois em dois anos. Neste cenário, um ator que busca a enésima reeleição ou um candidato morto tragicamente chacoalham mais o tabuleiro do que milhares de cidadãos comuns pelas ruas.

Estes, que gritaram nas avenidas por mudanças imediatas, ouviram dos partidos que a resposta deveria ser dada nas urnas. Ok. Mas nas telas das urnas, se olharmos bem profundamente, vemos, ao menos, o reflexo da sociedade brasileira?

Bom, se você for negro, mulher ou indígena, por exemplo, não será fácil se ver representando ou representado. Se você for pobre, nem se fala. Peguemos o Rio Grande do Sul como exemplo, onde o perfil dominante entre candidatos em 2014 é de homens, entre 45 e 49 anos, com ensino superior completo, casados e que se declaram como empresários. E brancos. Este é o “tipo ideal” da foto da urna.

No entanto, também somos negros. Segundo o IBGE, 19,3% dos gaúchos. Nas urnas, entretanto, candidatos que se declaram negros contabilizam somente 8,4%. Um abismo. O caso das mulheres é também gritante. Ainda que somem mais de metade da população gaúcha, elas têm somente 30% de presença nas urnas – sendo que, deste total, um percentual difícil de estimar serve apenas para cumprir a cota mínima exigida pela legislação.

A subrepresentação indígena, por sua vez, chega ao limite: são somente 83 disputando as eleições de um total de 25,9 mil candidatos no País. Como detalha um estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a maioria das unidades federativas nem têm candidatos indígenas. Os estados do Amazonas e do Mato Grosso do Sul, com as maiores populações de índios do Brasil, têm juntos 16 candidatos que assim se classificam. Quantos serão eleitos?

Se tais grupos já são minoria na disputa, eles se tornam ainda mais invisíveis após o primeiro turno. E incluímos neste grupo os candidatos “pobres” que, com suas campanhas modestas, não ascendem aos gabinetes. Basta ver que os 29 deputados federais gaúchos que tentam a reeleição declararam posses de R$ 31 milhões à Justiça Eleitoral. No topo desta lista, com bens avaliados em R$ 7,8 milhões, Luiz Carlos Heinze (PP), o mesmo que disse que índios, quilombolas, gays e lésbicas são “tudo que não presta”.

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Sim, valorizamos e queremos o povo nas urnas, ainda que seja para votar nulo. Mas também queremos o povo nas ruas até que se conquiste toda a democracia possível. E queremos bem mais. Queremos negros, mulheres, indígenas, gays, lésbicas, travestis e transgêneros nos representando. Assim sendo, enquanto política se fizer se dois em dois anos e for apoiada na subrepresentação, estaremos mês a mês fazendo jornalismo por uma democracia menos aristocrática.