FESTIVAL DIÁLOGO DE CINEMA 2014

O A primeira noite do Diálogo de Cinema lotou a sala P.F. Gastal, com direito a fila de espera pelos poucos lugares restantes da sessão de estréia do longa Castanha no estado. Bastante aguardado, o filme vinha fazendo uma carreira consistente e recebeu, no último mês de outubro, o prêmio de melhor filme da mostra Novos Rumos no Festival Internacional do Rio, além de ter sido o primeiro longa gaúcho a participar do Festival de Berlim. No debate, o diretor Davi Pretto pôde revelar alguns detalhes sobre o processo de imersão na vida do ator João Carlos Castanha e de sua mãe Celina, grande estrela do filme, ao longo de quatro meses de visita à casa em que moram juntos. O Festival aconteceu do dia 14 a 19 de outubro, contando com duas mostras: a Cercanias, dedicada aos curtas realizados no estado, e a Diálogo de Cinema, de nível nacional. Este ano, o Diálogo exibiu uma mostragem maior, em comparação com 2013, de filmes dirigidos ou idealizados por mulheres. Destaque para Sem Coração, de Nara Normande e Tião, eleito melhor filme pelo júri crítico e pelo júri popular.

O Dia Branco (Thiago Ricarte) abriu a mostra Diálogo de Cinema e merecidamente levou o prêmio de melhor direção. O diretor apresenta os personagens de costas para a câmera e, aos poucos, revela rostos e o universo pré-adolescente de três amigos. Um dos elementos de destaque neste ambiente é a tecnologia. O filme intercala cenas das brincadeiras dos meninos (em que o vencedor é aquele que “encostar primeiro na fitinha”) com cenas em que os garotos param o que estão fazendo e posam desajeitados para foto. Colocadas lado a lado, parecem evidenciar como a tecnologia nos submete a momentos tão sem propósito quanto uma brincadeira inocente.

Outro destaque da noite de quarta-feira foi Se essa Lua Fosse minha (Larissa Lewandoski) melhor curta de Gramado em 2014. A grande sacada do filme está no pequeno relato sobre um programa espacial da Zâmbia que, em 1964, buscava levar o primeiro africano à lua. No entanto, o programa fracassou por falta de recursos. As imagens e discursos que se seguem no curta são de habitantes da rua Garibaldi, em Porto Alegre, na sua parte mais miserável, próximo à rodoviária, lançando um olhar simpático sobre essas pessoas, mas sem deixar de retratar a tragédia. Ao final, os personagens vestem um capacete de astronauta, feito de sucata e tecido de chita, o que esteticamente torna o documentário bastante bonito, porém um pouco redundante.

Se essa Lua Fosse minha (Larissa Lewandoski)

Se essa Lua Fosse minha (Larissa Lewandoski)

Na sessão de quinta-feira, Castillo y El harmado (Pedro Harres), única animação da mostra e representante gaúcho no Festival de Veneza deste ano, é um filme para se contemplar, na sua imensa riqueza de detalhes. Os traços são ásperos, como que desenhados pela mão indelicada de algum estivador e todo o cenário de fundo, em contraste, flutua sutilmente. O gênero é um clássico do cinema, da literatura: o homem e o mar, grande embate com a vastidão desconhecida. Tal enfrentamento em geral conduz a um encontro brutal com as misteriosas criaturas que nele habitam. No caso, trata-se de uma história real contada por Ruben Castillo, diretor de arte que é o próprio personagem.

A câmera de Malha (Paulo Roberto) experimenta uma aventura pelo interior da Paraíba em dia de malhação de Judas. Toda uma comunidade se prepara ao longo do dia, almoço em família, cantorias, máscaras e fantasias, latões de Pitu, para a grande celebração à noite. Sem identificar personagens centrais, vemos toda a movimentação desse ritual, condensado numa montagem veloz, inebriante, que induz a um descontrole análogo ao da cachaça. Se o registro etnográfico de festas religiosas é tema batido, em Malha nos deparamos com um tratamento pouco convencional. A violência, que poderíamos diagnosticar com espanto na seqüência em que os homens preparam um corredor para açoitar uns aos outros, imediatamente convertida em riso, sequer constitui uma questão para o filme, dilui-se na grande brincadeira.

Nua por dentro do couro (Lucas Sá), exibido na mostra principal e também na mostraCercanias, realizado em Pelotas por um diretor maranhense, é um dos filmes mais consistentes deste ano, apuração das apostas estéticas dos curtas anteriores de Lucas Sá. Em Nua por dentro do couro, assim como em O membro decaído, os enquadramentos cuidadosos são capazes de enxugar o excesso de informação visual do interior de um supermercado, a ponto de torná-lo bonito! Essa delimitação precisa dos elementos do plano, sua ordem interna agradável, como se fossem espaços imperturbáveis, a coerência dos personagens, que se movem com objetivos fixos ou clara ingenuidade, criam a atmosfera do horror – que implora para que o grotesco venha sujar o plano. Pena que essa história não tenha se desenvolvido num longa, já é hora.

Nua por dentro do couro (Lucas Sá)

Nua por dentro do couro (Lucas Sá)

Bashar (Diogo Faggiano) confronta de início quatro imagens que constituem pontos de vista distintos sobre a guerra civil na Síria. Um, a entrevista do presidente Bashar Al-Assad concedida gentilmente à Fox News, em que trata de diminuir a dimensão da guerra. Seu rosto está desenquadrado, pressupõe uma tela que reproduz aquela imagem e alguém que a assiste, o olhar ocidental passivo. Três, o estrangeiro que chega ao país em guerra, ainda alheio na esteira rolante do aeroporto, zona neutra de ordem incorruptível, garantida pelo Estado e pelas empresas que estão lá estampadas na própria esteira, nas paredes, nas placas, enfim, por todos os lados, o que nos é muito natural. Por fim a guerra vista de dentro da Síria, aqui os discursos são múltiplos: primeiro a sátira de um ativista que parece falar a uma rede de televisão e, por um leve giro de câmera, percebemos que ele estava sendo enrabado por alguém vestido de macaco. Depois os rebeldes, que relatam os escombros de suas histórias pessoais, enquanto planejam uma ofensiva para os próximos dias. Confrontar essas imagens da guerra para que se possa erigir uma outra, para que essa tragédia não seja imediatamente ignorada. Urgência de um cineasta paulista que, antes de ir para a Síria, documentou também a queda de Mubarak no Egito.

O Porto (Clarissa Campolina, Julia de Simone, Luiz Pretti e Ricardo Pretti), o filme injustiçado da sessão de quinta, acusado de provocar tédio, se alinha às tantas produções recentes do cinema brasileiro preocupadas em discutir a transformação planejada das cidades através de projetos de revitalização excludentes que violentam a malha urbana. Tomamos conhecimento da história subterrânea que não mais está à vista, no atual porto do Rio de Janeiro, fileira de enormes transatlânticos. No século XIX, sua pacata função, para a qual havia sido reformado, era receber a imperatriz Tereza Cristina, que vinha da Europa para se casar com Dom Pedro II. Hoje porta de entrada para um Brasil da economia global, do turismo, em que o Rio resplandece como cidade-modelo, assistimos a essa transformação brutal que em poucos anos apaga as nuances antigas e refaz todo um plano urbano. Para discordar da escolha do júri: O porto tem o melhor tratamento e desenho sonoro da mostra, com a sua sinfonia de ruídos assombrosos.

A cor do fogo e a cor da cinza (André Felix) é o filme que salva a sessão de sexta-feira. Wagner, morador de uma favela de Vitória, possui um canal de televisão imaginário em que parodia novelas famosas, reinventando os personagens, brincando com os nomes reais dos atores e diretores para moldar as suas próprias estrelas, em papel e lápis de cor. O filme propicia a ele a montagem de uma novela com atores reais. Acompanhamos o vôo livre da sua fluente capacidade fabulação, notamos seu conhecimento profundo da história das novelas, aqueles preciosos ensinamentos do VideoShow depois do almoço. Nas cenas em que ele dirige pesa uma dramaticidade exagerada, quase mexicana, adoração e sátira do formato novelesco, no limite de uma performance afetada. Wagner é um personagem forte, espontâneo, o filme deixa a impressão de um processo criativo ininterrupto.

A cor do fogo e a cor da cinza (André Felix)

A cor do fogo e a cor da cinza (André Felix)

A sessão de sábado terminou com chave de ouro com o curta Sem Coração (Tião e Nara Normande). Filmado em Alagoas, as belíssimas cenas – algumas embaixo d’água – transportaram o espectador para dentro daquele ambiente, tão diferente dos dias nublados e chuvosos que percorreram a semana do festival. Na tela, vemos em abundância o azul e o amarelo, em água, céu e areia, mas não é apenas na fotografia que o filme agrada muito.

Léo, um garoto que vive na cidade, vai passar as férias com seu primo Vitinho, que mora em uma praia de pescadores. Os dois estão em alguma idade entre a infância e a adolescência, na fase em que as meninas começam a se mostrar mais graciosas aos olhos dos garotos. Os dias se resumem em estar com os amigos de Vitinho e Sem Coração, filha de pescador que possui um marca passo no peito. Uma das atividades rotineiras da turma é ir até uma piscina, lá Sem Coração permanece encostada na parede, levanta a saia e os moleques, um de cada vez, introduziam-se nela. Durante o ritual, os meninos permanecem observando em silêncio, da mesma maneira que Sem Coração. Em todos os lados existe um acordo tácito, o ato se apresenta como trivial. Leo se envolve mais com a menina. Quando são os dois que estão encostados na parede, revela: “Queria te beijar”, fazendo alusão ao beijo que já havia acontecido, em dia anterior, embaixo d’água, longe dos olhos dos outros e do julgamento. O beijo significa o envolvimento sentimental dos jovens, algo que não pode ser mostrado, enquanto o ato sexual acontece feito uma necessidade física, que não envolve sedução, conquista, afeto, desejo, é quase mecânico.

O filme surpreende também pela atuação. Alguns dos atores são moradores das praias em que o curta foi filmado. A produção realizou um delicado trabalho de preparação do elenco e conversa com os pais das crianças, visto que muitos deles ainda não haviam passado pela experiência sexual, tampouco tratavam destas questões com a família.

Com uma narrativa original e madura, Sem Coração lida com temas difíceis na vida de personagens que estão em processo de descobrimento do mundo e de si mesmos. Isso é o que torna o filme tão complexo e rico em sentido. Ainda que submerso neste universo, a narrativa também transporta o espectador para fora da tela, para o extra-fílmico, ao provocar questões que vão além dos enquadramentos. Por isso, Sem Coração arremata com uma história com inspirações reais que levantou polêmica na sessão comentada e com certeza em qualquer mesa de bar em que o debate tenha se prolongado após a sessão, ou nos dias seguintes.

Sem Coração (Tião e Nara Normande)

Sem Coração (Tião e Nara Normande)

O Porto (Clarissa Campolina, Julia de Simone, Luiz Pretti e Ricardo Pretti) foi disponibilizado no Youtube:


 

por Daniela Fischer Fonseca e Luciano Viegas