Diário de Cinema: Davi Pretto, autor de Castanha

Castanha, belo longa de estreia de Davi Pretto, chega aos cinemas nesta semana, após o passeio que fez por vários festivais desde o início do ano – sua estreia foi na mostra paralela Fórum do Festival de Berlim, recentemente ganhou o prêmio da mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Aproveitei a estreia para fazer uma pequena conversa com o diretor sobre algumas questões que o filme me deixou.  

 Castanha vem sendo citado como mais um filme contemporâneo que dissolve as fronteiras entre o documental e o ficcional, um procedimento já envelhecido do cinema. Mas o que me chamou atenção, de cara, é que, se o espectador não conhecer a figura de João Carlos Castanha, o filme se passa tranquilamente como uma narrativa ficcional. Por vários motivos, pelo modo como você filma, fugindo das tentações mais óbvias da câmera documental, pelo entrelaçamento das ficções criadas pelo próprio personagem, pelas escolhas narrativas, como a introdução do drama familiar. Não é um filme que confunde o espectador em momento algum, isso já estava desde o início no processo criativo?

 O filme antes (lá por 2012, quando esperávamos o resultado dos editais que inscrevemos) tinha uma abordagem observacional com construção ficcional a partir dessa observação e da montagem. Eu ia fazer a câmera, a Paola (produtora do filme) ia fazer o som. Ia ser algo realmente pequeno. Enquanto a gente esperava os resultados, fui me aproximando mais de um modelo onde a construção ficcional parte de um processo de registro documental bastante preparado e com muitas intervenções. A invisibilidade não era mais tão importante para mim. Com isso claro, surgiu a possibilidade de ter mais pessoas na equipe (fotógrafo, operador de som, diretor de arte, etc). No fim das contas, eu tentava fazer um filme bastante clássico. O roteiro tinha 90 cenas, um início/meio/fim bastante definido, os conflitos e dramas paralelos estavam todos detalhados, para onde tinham que ir, como se desenvolviam etc. E o filme hoje é grande parte esse roteiro. Mas claro, há todo um processo paralelo de investigação do personagem real, de aproximação com essas histórias pra conseguir não precisar tanto da invisibilidade, que no fim das contas, é um processo bastante documental também. Por isso sempre digo que o filme é uma mistura o tempo todo, tanto conceitualmente quanto na prática, nas filmagens. E pro cinema, realmente não tem nada de novo nisso.

 Também me parece um filme muito pessoal, apesar de a vida do ator ser a grande inspiração. É exagero dizer que Castanha tem um tanto de autorretrato? Até mais do que um exercício de alteridade? 

 Isso me lembra uma vez que me perguntaram como um diretor jovem, heterossexual de 26 anos, poderia fazer um filme sobre um ator de 52 anos e homossexual. Me cansa às vezes um pouco essas definições. Acho que o filme pode ser sim um autorretrato, no caso do João, que se entregou de maneira monumental ao filme, emocional e físicamente. Mas acho que também o filme fala muito sobre uma Porto Alegre abandonada e sombria. Fala muito sobre a velhice, o esquecimento, a doença e a morte. Sobre a vida de um artista marginal (sobre)vivendo no Brasil. São temas plurais, no fim das contas. Castanha

Há quem diga que o João Carlos Castanha já é um personagem pronto – e que não é difícil criar um grande filme sobre ele. Mas também é muito fácil cair num exploitation da persona dele, assim como num exploitation da noite gay. E o filme lida com o personagem e o universo dele, especialmente sua família, com muita maturidade. 

 Aos que pensam isso que você cita primeiro, posso apenas dizer que eles foram muito lentos e preguiçosos em não terem feito o filme antes de mim então. Uma pena. De resto, não me sinto nada jovem, tenho muitas dores nas costas e reclamo muito, talvez por isso que você sinta essa maturidade no filme. É velhice de alma, não por questão de méritos meus.

 O filme também me parece identificar algum uma natureza sufocante do trabalho noturno, nas festas, nos shows. As cenas são quase sempre interrompidas antes do tempo, antes de se tornarem um espetáculo, de revelarem qualquer tipo de prazer. Esses cortes realmente sufocam, marcam uma rotina cansada, até mesmo burocrática, do Castanha, por mais que envolva a criação, a arte. A impressão é a de que você filmou a noite como um escritório.

 Talvez isso seja outra falha minha também, por não gostar de sair à noite. Não gosto de festa, não gosto muitas pessoas juntas, barulho etc. Mas fora isso, eu me interesso muito pelo lado laboral da arte. Pra mim a arte é algo muito braçal, muito do cotidiano, de repetição. Não tem nada de glamour e espetacular. E me interessava observar o João no camarim sozinho, se arrumando, esperando, fumando. Ele arrumando a mochila, saindo de casa, etc. Algo de rotina mesmo. Acho muito mais bela a arte da repetição quase insistente, do que a arte do jovem prodígio que parece que nasceu com talento. Isso talvez seja um conceito muito oriental, mas enfim.  

 Você cita dois cineastas nos créditos do filme, John Cassavetes e Jean-Pierre Melville. São praticamente dois polos opostos do cinema: o calor, aquela intensidade convulsiva, desesperada, do Cassavetes, e o gelo, o rigor absoluto, do Melville. Mas, ao mesmo tempo, são dois cineastas que filmaram personagens que sentem a morte se aproximando. Me parece o grande tema do filme, e isso vale pra todos os personagens principais (Castanha, a mãe, o pai). De qualquer forma, Castanha está muito mais para Melville, não acha?

 Os filmes do Cassavetes me contaminaram com uma vontade de fazer cinema de amigos, micro e horizontal. Fiz muitos curtas sem dinheiro e sem grandes resultados. Esse clima de fracasso iminente me atrai muito. Castanha foi um filme bastante pequeno, ingênuo e arriscado. Ao mesmo tempo foi assistindo Melville que encontrei na construção metódica um resultado forte de gênero com outros tempos narrativos, outros climas. E sim, acho que Castanha tem mais disso, é um filme, no fim das contas, com um resultado mais sóbrio, frio e duro. Mas sempre desde o ínício do projeto foi um filme de ator e para um ator, resultado que acho que está no filme, algo bastante “cassavetiano”.

 Pensando no Castanha dentro do cinema realizado no RS. Ele já foi citado como uma espécie de abre-alas da geração jovem daqui, que promete alguns longas-metragens pros próximos anos. Como você vê essa cena contemporânea do RS? É um cinema que passou muito tempo distante dos principais festivais, mas que agora está encontrando um caminho, estreitando laços, diálogos. Acha que seu filme realmente representa uma nova etapa do cinema daqui?

 Não acho que Castanha é um filme abre-alas, nem mesmo para outros filmes meus. Não gosto de colocar no meu filme alguma obrigação para ele ser algo, além do que apenas um filme. Felizmente, hoje não dá pra entender mais tão facilmente qual cinema é feito no RS, no Brasil, Portugal ou nas Filipinas. Existe muita mistura, muitos realizadores surgindo. Isso me agrada. Os resultados do cinema feito no RS ao longo dos anos são partes de um processo bastante complexo. Há 10 anos não existiam faculdades de cinema aqui, não existia a força do cinema digital (não só as câmeras, mas formatos de projeção, festivais totalmente onlines, transmissão dos filmes para projetar via web, etc), não existiam tantos torrents de filmes de arte, etc. Única coisa que espero é que o cinema feito no RS seja cada vez mais plural e complexo, com suas contradições, atritos, fraquezas e grandezas.

 

Por Leonardo Bomfim