Começamos a morrer

(Porque o túmulo sempre há de entender o poeta).

Baudelaire.

I

Quando Platão nos expulsou da República ideal, tivemos que fundar a nossa própria. Há um país invisível e imaginário que une cada escritor, crítico e leitor. No nosso país, como queria Catulo, não há regras nem leis. Somos exilados em terras estranhas. Anarquistas de um tipo especial, na raiz do termo. Os Estados nos perseguem com suas policiais, juízes e soldados. Eventualmente, acabam por nos matar. O mercado avança sobre nossos domínios, assim como as Academias e as institucionalizações. Nós, porém, continuamos. Heróis e idiotas, como disse Bolaño. A maioria de nós é incapaz de arrumar empregos normais. De fazer coisas normais. De manter relacionamentos normais. Somos uns miseráveis nessas terras. Só conseguimos ser algo no nosso país invisível. Lá, onde o discurso é livre. Onde todos podem falar ao mesmo tempo e onde nunca há cacofonia. A única coisa que assombra nosso país é a morte de um de nós. Um morto, todos mortos.

II

Dias atrás, veio um professor chileno falar sobre Nicanor Parra na USP. Muitos dos que estavam no auditório se retiraram assim que terminou a leitura anterior, sobre Paz. O professor era um daqueles nascidos na década de 1950. Assistiu a ascensão de Allende e o golpe posterior. Viu uma geração inteira ser trucidada. Ele mesmo teve que se exilar. De toda forma, ainda era membro do nosso país, mas carregava algo que as gerações mais novas ainda não compreendem: a melancolia e o peso dos mortos.

III

Ando falando muito em morte. Esta vontade que, eventualmente, aparece em todos. Morte como pulsão, tensão primordial deve ter sido o único ponto que restou de Freud. Alguém esteve prestes a morrer. Só estava tentando adivinhar quem seria. Foi Xu Lizhi. 24 anos. O primeiro morto da nova geração do país invisível e imaginário. Era um desconhecido, da forma que os poetas jovens devem ser. Carregava apenas alguns leitores mais fervorosos, espaço em que me incluo, que o liam quando calhava de aparecer alguma tradução para o inglês de um dos seus poemas.

Seus escritos eram contidos, porém certeiros. Estavam ficando cada vez mais menores. Nenhuma palavra a mais ou a menos. Xu Lizhi escrevia sobre o trabalho industrial, a humilhação constante da vida na China contemporânea, o sufoco urbano, o dinheiro curto. Era um operário da Foxxcon, empresa que explora mão de obra barata do terceiro mundo para produzir produtos da Apple e outras bobagens. Dessa existência fabril, ele soube sugar tudo que havia de tutano. Talvez tenha sugado até demais. Em um de seus poemas de dezembro do ano passado, ele dizia que “a juventude que reverencia as máquinas morre antes do tempo”.¹ Nada pode ser mais triste do que um profeta de si mesmo — coisa que remete a um de seus melhores poemas, Um Tipo de Profecia:
“Os anciões da aldeia dizem

Que pareço com meu avô quando jovem

Não aceitava isso

Mas ouvindo-os de novo e de novo

Me venceram

Eu e meu avô dividimos

Expressões faciais

Temperamentos, passatempos

Quase como se tivéssemos vindo do mesmo útero

O apelidaram de “tronco de bambu”

E a mim de “cabide de roupa”

Ele, muitas vezes, engolia o que sentia

Sou, muitas vezes, subserviente

Ele gostava de adivinhações

Gosto de premonições

No outono de 1943, os demônios japoneses invadiram

E queimaram meu avô vivo

Ele tinha 23 anos

Faço 23 este ano.”*

Infelizmente, não falo mandarim e domino muito pouco dos aspectos formais da poesia chinesa para tecer comentários mais profundos em relação a isso. Porém, é desnecessário. Xu Lizhi tinha uma compreensão terrível das coisas obscuras. Falava das nossas infelicidades, percepções agudas daqueles que estão embaixo. Quarto Alugado, um poema curto e recente, dá o tom do desespero:

 

“Um espaço de dez metros quadrados

Apertado e úmido, sem luz do sol o ano inteiro

Aqui como, durmo, cago e penso

Tusso, tenho dor de cabeça, envelheço, adoeço, mas, ainda assim, não morro

Sob a luz amarela fosca, encaro o nada de novo, rindo como um idiota

Ando em círculos, canto suavemente, escrevo, leio poemas

Toda vez que abro a janela ou o portão

Pareço um homem morto

Abrindo devagar a tampa do caixão.”

 

Ele veio do campo e se chocou com violência contra a cidade. De cara em um muro de concreto. De cara nas ilusões falsas.

IV

Xu Lizhi foi o primeiro poeta da nossa geração a despontar. É um daqueles casos raros que parece ter nascido pronto — ligado, no íntimo, com o cerne do que é a poesia. Também foi o primeiro poeta da nossa geração a morrer. Começamos, assim, todos a morrer. Temos vinte e poucos anos. Nos resta, com sorte, mais uns quarenta ou cinquenta. O tempo sempre é pouco. O que nós vamos dizer? Com essa morte, nossa caixa de pandora foi aberta. Agora é tudo ou nada. Houve gerações nas quais a morte demorou para macular. Só precisamos de 24 anos. Somos filhos de uma geração que foi trucidada. Netos de outra que experimentou terrores ainda piores. O que podemos fazer contra o monstro que nos persegue?

V

Comecei a ler Xu Lizhi no meio do ano passado. Uma neblina de gás lacrimogênio cobria as coisas e os idiotas tomavam nossa rebelião. Uma poça de sangue perfeitamente redonda me vem na cabeça toda vez que penso nele, toda vez que releio seus poemas. Ele agora está morto. Aqueles dias se foram. A burocracia e a falta de alegria voltaram a ocupar seu espaço. De repente, tudo parece insustentavelmente mais pesado.

*

Até onde sei, não havia traduções, até agora, de Xu para o português. Elaborei versões livres a partir do inglês.

¹

Engoli Uma Lua Feita de Ferro

 

Engoli uma lua feita de ferro

Dizem que é um prego

Engoli o esgoto industrial, esses papéis de desempregado

A juventude que reverencia as máquinas morre antes do tempo

Engoli a pressa e a miséria

Engoli as passarelas, a vida coberta de ferrugem

Não posso mais engolir

Tudo aquilo que engoli está agora saindo pela minha garganta

Desfraldado sobre a terra dos meus ancestrais

Na forma de um poema desgraçado.

 

Por Bruno Rodrigues