A autoficção e a “crítica especializada”

Autoficção é um dos conceitos mais vazios que teve a infelicidade de existir no meio literário. Acontece quando um autor se coloca como personagem ou narrador de uma obra que trata sobre passagens “reais” de sua vida. Logo de cara, assim, muitos problemas surgem. Em primeiro lugar, já é cristalizado, desde Barthes e Foucault, que o autor em si (a pessoa que escreve) não tem muita importância para a constituição e a apreensão da matéria literária. Em segundo, o fato dele se “colocar” na obra não diz grande coisa — não chega a alterar, de modo significativo, a estrutura hierárquica tradicional. Em terceiro, algo ser “real” ou ficcional (sequer creio nessas categorias) é completamente irrelevante. Autoficção é uma bobagem sem aporte teórico mínimo, elaborada, no princípio, por críticos franceses menores (eufemismo para medíocres) durante os anos 1970.

Porém, ela tem ocupado, desde meados desta década, uma parte importante da “crítica especializada” mundo afora. Dizem que, por exemplo, reflete nosso tempo — egocêntrico, “líquido”, no qual privado e público perderam seus sentidos, essas besteiras de sempre. Aquela vontade velha de querer encaixar as peças e de perceber, antes de todos, o óbvio ululante. Assim, depois de tomar a “crítica especializada”, a autoficção tomou a Academia. Artigos, teses e coletâneas andam pipocando de todos os lados, escritos por estudantes ávidos em agradar orientadores e construir uma bela carreira baseada em nada. A questão que se coloca é clara: como que um conceito que pode ser destruído em um parágrafo conseguiu se espalhar como o Ebola pelas redações de cultura e pelos gabinetes dos departamentos? A resposta, porém, não é muito agradável.

A “crítica especializada” (aquela feita em jornais de grande circulação, em especial) agoniza. Nada se salva. Se tornou cada vez mais rasteira, sem aprofundamento, sem reflexão, sem tesão (ou amor, para os românticos) pela coisa. É, hoje, chapa branquíssima. Fala bem dos amigos, ignora os desafetos, não possui senso para buscar movimentos interessantes que estejam ocorrendo. Nem sempre foi assim. Já tivemos, só para citar um, Otto Maria Carpeuax escrevendo nos nossos jornais — gente de peso, inventiva, profundamente culta e apaixonada. Os tempos, entretanto, mudam. Não me interessa contar a história do que aconteceu. A tragédia está aí.

Nessa conjuntura deprimente, a autoficção ganha espaço. É um conceito rasteiro, simples, não exige esforço. Adoro quando tudo conflui. Além do mais, é a última moda (assim como foi a literatura que tratava sobre a própria literatura — a metaliteratura, outro conceito frágil e irrelevante). É uma explicação rápida sobre tudo. Uma forma pronta para receber encaixes. Logo, também brilha nas Academias. Os ambientes da literatura institucionalizada se curvaram diante da novidade permanente, da busca pelo novo, daquilo que pode suscitar um interesse qualquer até a próxima moda. Nós, porém, sabemos que literatura não tem nada a ver com esse mecanismo de mercado. Ela é o oposto. É o espaço menor, o desaparecimento, o silêncio, o diálogo entre o indivíduo desgarrado e a coletividade selvagem.

A autoficção, por fim, é um truque, uma piada sem graça que até já foi espinafrada por alguns escritores mais atentos (Coetzee, Lísias — tratei sobre isso em um texto anterior). Não caiam de amores pela moda. A literatura, assim como a crítica, deve ser radical ou, então, não deve ser nada. Não quero uma literatura que possa ser posta em padrões e dissecada aos olhos de anatomistas técnicos, sem um pingo de incerteza e terror. Se a “crítica especializada” está na vala, não carece chorar. Já vai tarde. Um novo momento e uma nova geração surge. Só espero que não façamos os mesmos erros.

Por Bruno Rodrigues