Os fragmentos da experiência: smartphone e literatura

A primeira pergunta é a mais difícil: houve alguma época na qual a experiência não tenha sido fragmentada? Eu tendo a pensar que não. A experiência, isto é, os conhecimentos e vivências que adquirimos ao longo da vida, sempre precisou ser partilhada com a comunidade. Foi para isso, por exemplo, que estabelecemos linguagens — desde a língua oral e escrita até a literatura e todas as outras artes. Toda partilha é um fragmento, pois ela nunca vai se desenvolver da mesma forma com duas pessoas diferentes. Assim, a história da experiência é a história da fragmentação. Costumamos pensar nos fragmentos como algo da modernidade, mas isso é absolutamente falso. Os poemas homéricos, para ficarmos em um argumento de máxima autoridade, são constituídos por pequenas fragmentações, por exemplo. Cada passagem de canto constituí uma quebra, um corte narrativo. Podemos pensar também nas bibliotecas dos tempos antigos, sempre ameaçadas e em vias de extinção. Um incêndio ou uma invasão militar e quase tudo se perdia. Dessa forma, é uma visão pobre dizer que apenas a nossa época fragmentada, principalmente por conta da internet. O que a internet faz é o que nós fazemos. Ela não é uma entidade controlada por uma inteligência artificial, mas uma rede estabelecida por nós e que segue a nossa forma de estabelecer experiências.

Porém, antes de avançarmos direito para o fim, quero fazer uma cronologia. O ponto nevrálgico ocorre em 1439, com a Prensa de Gutemberg. Os copistas, tão importantes para manter as obras filosóficas, literárias e científicas, foram preteridos por uma máquina. Nos séculos que seguiram, houve um intenso movimento para estabelecer um mercado em torno dos livros, o que, por óbvio, chamou a atenção dos Estados. No século XVIII, na França e arredores, o cenário já era extremamente complexo, com mecanismos de censura e de distribuição clandestina. Ao lado, houve a instauração dos jornais, ainda durante o século XVI. A partilha da experiência, aliada ao avanço da tecnologia, se tornou mais difusa e menos restrita (apesar das massas analfabetas). A experiência perdeu seu caráter estritamente oral e se ligou, em seu cerne, com a palavra escrita. Essa ruptura a tornou ainda mais fragmentada. Explico: no Império da Oralidade, era necessária uma presença física, um diálogo estabelecido. Já no Império da Escrita, o monólogo lentamente começou a tomar espaço, tornando, assim, a compreensão mais pessoal. A fragmentação gera subjetividade. Porém, nada é tão fixo. Conforme o desenvolvimento da prensa e imprensa diária, se constitui algo que Walter Benjamin, em uma das versões de seu “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, chamou de autor-leitor:

[…] Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores passado, a situação começou a modificar-se uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente de leitores começou a escrever, a princípio esporádica. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção “Cartas dos leitores”. Hoje em dia, raros são os europeus inseridos no processo de trabalho que em princípio não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional, uma reclamação ou uma reportagem. Com isso a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor.

Esse é o ponto ao qual eu realmente gostaria de chegar. A fragmentação máxima e a subjetividade máxima rompem com a diferença até então fundamental entre o autor e o leitor. No fim do século XIX, época sobre a qual Benjamin escreve, é que há a real quebra no processo de partilha da experiência. No Império da Oralidade, nunca um ouvinte poderia ocupar o mesmo espaço daquele que falava. Ele teria, ao menos, que esperar sua vez. As “cartas dos leitores”, porém, anulam a questão dos espaços. É possível escrever e ler ao mesmo tempo. O mais interessante é que há uma franca retomada do diálogo. Até o fim do século XIX, era preciso escrever outro livro ou então partir para a correspondência pessoal, de caráter privado, para rebater alguma ideia.  Entretanto, a mudança não era absoluta. Havia ainda um último entrave, o qual Benjamin não percebeu: o editor. Afinal, não eram todas as cartas que recebiam aval para a publicação. O passo além da fragmentação das experiências viria com a morte do editor como uma figura pura.

Antes, entretanto, há uma mudança radical no paradigma do meio. Na década de 1920, houve o início das operações comerciais do rádio, e na de 1930, o da televisão. A partilha da experiência assim, assume o som e a imagem. Porém, ainda não há uma mudança efetiva nas hierarquias da partilha. Tanto o rádio quanto a televisão ainda se constituem na ideia de autor-leitor, ou, no caso, de produtor-espectador. Há o início de algo novo, mas não efetivamente.

A forma da internet atual surgiu nos anos 1980, quase 550 anos depois de Gutemberg. Ela, entretanto, só se popularizou efetivamente no fim da década de 1990 e com o acesso de banda larga durante os anos 2000. O papel dela nesse cenário inteiro é decretar o nascimento do autor-leitor-editor, uma fragmentação máxima da experiência que supera a fragmentação máxima anterior. Qualquer um com um computador é absolutamente livre para escrever o que quiser, publicar e ser lido. A partilha das experiências alcança um grau de alta voltagem, também, em parte, pelo fato de ser imediata. A retomada do diálogo também se dá de maneira absoluta. Um texto pode ser comentado e gerar uma discussão poucos minutos depois de sua publicação original. Esse imediatismo e a violação total de hierarquias faz nascer uma nova época velha para a partilha das experiências. Certos aspectos foram trazidos de volta e outros floresceram. A partilha, assim, se torna mais completa, ao mesmo passo que mais simples. O Império da Oralidade e da Escrita se fundem, apesar do meio que prevalece ser o escrito. Entretanto, ainda havia um único empecilho: para acessar a internet, era preciso estar em um determinado local com um computador. Para partilhar alguma experiência que tivesse ocorrido na rua ou em outro ambiente, era necessário esperar ter acesso ao computador. É aqui que entra o smartphone.

Apesar de outras formulações nas décadas passadas, o smartphone só se constitui realmente na ocasião do lançamento do primeiro Iphone, em 2007, e do primeiro aparelho com sistema Android, em 2008. Sua popularização é rápida na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos, chegando com força ao “mundo subdesenvolvido” dois ou três anos depois. Essencialmente, a questão do smartphone é potencializar o que já havia na Internet “fixa”. Porém, esse processo gera mais uma fragmentação máxima. O imediato se torna mais imediato, aliado com os recursos de câmera, gravação de som, entre outros. A partilha começa a fugir do escrito, indo também para os vídeos, para as fotos — partilha absolutamente total. Ela ganha tons políticos, artísticos — faz emergir uma nova estÉtica para a experiência. Até agora, elaborei quatro grandes fases da fragmentação: Oralidade, Escrita, autor-leitor, autor-leitor-editor. Não sei denominar esta que desponta como uma nova. Se os meios e as hierarquias se romperam em absoluto, há algo mais pujante.

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Cada fase da fragmentação, até a Internet, acabou por gerar novas formas literárias: a poesia épica e dramática, a prosa, o romance. Porém, é evidente que essas formas levaram séculos para se firmarem, séculos de refinamento e estudo. O romance, que pertence à fase do autor-leitor, aparece, por hora, como a representação formal máxima. Ele ainda está vivo e bem, respira sem aparelhos. Entretanto, se estou correto nestas divagações infinitas, é de se esperar que, em algum momento do futuro, surja uma nova forma que dê conta dos novos tempos. Tenho a mínima ideia do que pode ser. Não sou vidente. Porém, creio que Homero ficaria chocado e sem entender nada caso lhe caísse nas mãos o Ulysses, de Joyce. A fragmentação é a lei geral da partilha da experiência e a partilha da experiência é o centro de toda literatura. Talvez, claro, não apareça nada. Querer imitar exatamente as formas é um erro boçal. Balzac, por exemplo, não colocou uma seção de “Cartas dos leitores” nos seus romances. Mas há algo que pode ser processado e transformado. As artes não são puras, nunca foram. Elas se embolam com a política, com a vida social, com as ciências, com as transformações e também com as tecnologias. Não temam: o futuro pode ser bom. Até para nós.

P.S.: Ser ingênuo, por vezes, faz bem. Mas é claro que, se pensarmos um pouco, dá para ver que as grandes companhias (Google, Apple etc.) talvez ocupem o papel de editor, em uma formatação bem mais complexa e distópica.

 

Por Bruno Rodrigues