O espaço da mulher e a crítica por vir

Por mais que eu me preocupe com o espaço da mulher na literatura, evito constantemente escrever sobre o tema. Tomar a palavra de Outro, mesmo que seja a favor, implica na repetição do mesmo mecanismo de opressão etc., coisas que todos estão cansados de saber (apesar de muita gente ignorar isso na prática). Porém, desta vez, não me aguentei.

Do início: Um tempo atrás, o jornal Cândido publicou uma lista sobre os vinte livros brasileiros mais importantes dos últimos vinte anos, escolhidos por críticos, professores universitários e afins. Já no texto introdutório, veio o primeiro problema: “livros”, no caso, só aqueles escritos em prosa. Como se a poesia fosse algo separado ou menor. Passando os olhos pela lista, nenhuma surpresa. Hatoum, Rufatto, Chico. O esperado, nada além, um bocejo. Como o juri era livre para escolher, vinte virou quinze. Desses quinze, doze foram escritos por homens*. O que nos leva a concluir que, entre 1994 e 2014, a literatura brasileira foi um ambiente dominado por homens que escrevem prosa.

Ao andar por alguma faculdade de Letras, por alguma editora ou, vá lá, até mesmo por alguma livraria, é notável que a presença feminina supera a masculina. Mulheres leem mais, pesquisam mais e estudam mais literatura. Como compreender, então, o fato de que elas dificilmente ocupam o mesmo espaço de destaque dos homens? Dos vinte jurados da lista, apenas seis eram mulheres. Fora das Academias, quantas mulheres vemos escrevendo crítica ou teoria? A literatura, que tem por si uma imagem tão libertária e avançada, é, na verdade, tão conservadora quanto qualquer outro campo da sociedade. Nós mantemos as coisas da maneira que elas estão, reproduzindo comportamentos danosos e fingindo que não somos assim. O recente caso Idelber está aí para provar isso. Não foram poucos os professores, críticos e escritores que saíram em defesa do amigo e ignoraram as declarações das vítimas. Claro que é possível dizer que a literatura está condicionada ao meio social, aliviar nossa culpa. Porém, a vida real não funciona assim.

O que o jornal Cândido e seu juri ignoraram é que o mais importante da literatura brasileira recente vem da poesia escrita por mulheres. Nossos romances, cheios de pretensão de querer entender o “Brasil” ou compadecidos pelos mais pobres (uma literatura da caridade!), são cada vez menos revelantes, cada vez mais se copiando ou caindo na armadilha de repetir formas, fórmulas. Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas, Rua da padaria, de Bruna Beber, Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques, Um teste de resistores, de Marília Garcia, a poesia ainda não publicada das geniais Hilda Machado e Juliana Krapp, Coisas Coiós, de Isabel Câmara, Rabo de Baleia, de Alice Sant’Anna, Atos de repetição, de Valeska de Aguirre — um pouco do que consigo lembrar só de cabeça daquilo que é efetivamente forte e transformador no nosso cenário, daquilo que cutuca algumas certezas e desestabiliza os padrões. Por que um jornal institucional e o seu juri de nomes “especializados” preferiram ignorar o que há de mais interessante para compilar uma lista que ecoa no mais do mesmo? No Brasil, a posição da mulher que escreve  sempre foi vista como uma ameaça. Não é à toa que Pagu foi jogada por muito tempo para debaixo do tapete, que ninguém conheça Francisca Júlia ou que Ana C. tenha sido tratada, por muito tempo, como mera “musa” da poesia marginal.

Se há uma crítica por vir, ela depende de uma articulação menos conservadora e preocupada com a sua própria imagem. Ela depende essencialmente de mulheres que escrevam, tomem espaço e desestabilizem esse cenário histórico. Não vai existir uma nova crítica se tudo se manter como está no formato estrutural. Não dependemos apenas dos discursos, mas também de quem fala. Se a única radicalidade que existe na literatura brasileira hoje é feita por mulheres (e nem só pelas poetas, na prosa temos alguns exemplos, como a Veronica Stigger), que ela seja transposta também para a crítica.

 

* Nem quis entrar no mérito de que apenas dois livros foram escritos por pessoas negras — outro tema, mesmo assunto.

Por Bruno Rodrigues