Pular para o conteúdo

Um agitador de saias

17/05/2013
por

Nesta sexta-feira, dia 17 de maio, se comemora o dia internacional de combate à homofobia. Na sua segunda edição, em junho de 2011, o Tabaré publicou uma entrevista com o cartunista Laerte Coutinho. Confere nosso papo com ele sobre gênero, sexo, identidade e liberdade.

blomu702-07-07

Domingo. Dia das Mães. Já anoiteceu. Esperamos a celebridade do FestiPoa Literária aparecer. Hoje é o encerramento e pretendemos fazer a entrevista antes que a celebração inicie. Aguardamos, aguardamos, aguardamos… “Ei, olha lá, acho que chegou.”

Saiu do taxi com delicadeza. Atravessou a rua com prudência. E, por incrível que pareça, o altar do salto alto mais beatificava do que sensualizava. No entanto, as botas também dificultavam o caminhar e, por isso, os passos eram contidos. Mesmo assim, o ar de elegância era mantido. A roupa discreta ajudava a sustentar um ar moderno e respeitoso: era um xale preto sobre a camiseta listrada, e um vestido preto sobre a meia-calça lilás. Além disso, os quase 60 anos de idade ajudavam a perfumar de austeridade aquela silueta sem curvas graves. De qualquer forma, um pronome de tratamento feminino se adequaria muito bem para chamar-lhe a atenção. Mas, preferimos o nome próprio: “Laerte, com licença…” Foi assim que o famoso cartunista concedeu essa entrevista ao Tabaré, nas dependências da boate Beco, hora antes de começar o evento de encerramento do FestiPoa Literária.

Enquanto entramos no edifício antigo, os olhos esquadrinham os detalhes do entrevistado: brincos nas orelhas, colar no pescoço, unhas coloridas. Aliás, as mãos de unhas pintadas não desenham mais os personagens clássicos: Piratas do Tietê, Overman, Fagundes… A curiosidade aumenta.

O prédio tem dois andares: festa vai se limitar ao andar de cima, por isso, o andar de baixo está fechado. Subimos até o segundo piso. Nas escadas, Laerte Coutinho se refere a si mesmo ora no masculino, ora no feminino. Novamente, surge uma dúvida de como tratá-lo: Senhor? Senhora? Cara? Devemos parabenizá-lo pelo Dia das Mães? Complicado. O melhor é permanecer no nome: Laerte!

Tabaré: Queria começar te perguntando como é o relacionamento com a tua mãe. Ela é viva ainda?

Laerte: É, tá viva. E o relacionamento é ótimo. Minha mãe é uma criatura dotada de um humor que eu considero minha herança (risos), minha melhor herança!

Tu acredita que ela possa ter sido uma inspiração?

Não, uma inspiração não! Eu não acredito em inspiração. Ela foi minha formação. Ela e meu pai, né!? Em casa, sempre se… sempre se leu, sempre se… A banda vai passar som agora? Vai ser foda isso.

Pois é, achei que eles já tinham passado. Dá pra pedir pra abaixar essa música… [um repórter vai falar com a organização do evento].

Se possível… Então, lia-se muito, via-se muita coisa, tivemos acesso desde criança a um material muito farto de produção cultural. Pra mim sempre foi… (começa uma música eletrônica muito alta) De repente a gente sai daqui…

Pois é, desse jeito é impossível. Tu já conhecia essa casa?

Não! Eu só vim a Porto Alegre há, sei lá, vinte anos atrás.

E tu gosta daqui?

Pois é, essa é a primeira vez que eu vim e, de alguma forma, vivi alguns dos encantos da cidade. É muito linda, muito legal, bem gostosa. A dimensão da cidade, principalmente, é uma condição agradável para alguém como eu… (risos). Pra alguém que vem de São Paulo, uma cidade onde tudo é meio intocável. Aqui, você consegue sentir um controle de trajetos, de dimensões, de espaços. Isso é uma sensação muito boa.

E, ao mesmo tempo, não é uma cidade pequena. Porto Alegre tem várias características legais. Eu tô sentindo isso pela primeira vez. Das outras vezes que eu vim, ou tava de passagem, muito rápido, ou tava com algum tipo de distração, não sei. Minha memória não guardou muita coisa das outras visitas. Algumas delas foram a trabalho mesmo, então eu francamente não vi nada. Fiquei num lugar fazendo reunião e trabalhando, depois fui pro aeroporto e voltei.

Laerte, mudando de assunto, o que as roupas representam pra ti?

Roupas? São formas de expressão. São uma maneira com que o ser humano se expressa e se conduz na sociedade. Do meu ponto de vista, as roupas representam a forma mais visível de exercer a expressão de transgeneridade. De furar o bloqueio desse código de gêneros binário: masculino/feminino. Eu tenho achado muito agradável, muito rico, muito alegre. Me deixa com um espírito muito bom experimentar o vestuário feminino.

Mas, não é só o vestuário. É também os modos de expressão, o gestual, o comportamento, o modo de exercer certas coisas. Quer dizer, a essa altura da minha vida, outros comportamentos que fazem parte do código de gênero, eu já quebrei! Eu já demoli há muito tempo. Mas a roupa…

O que tu demoliu?

Ah, não sei… Esse tipo de imbecilidade de que homem gosta de futebol e mulher, de ir às compras. Desse tipo de coisa, eu já me desvencilhei há muito tempo. Mas os códigos de gênero são meio brutais. São coisas que tendem a ser totalizantes, tendem a definir todas as dimensões do comportamento humano. “Homens devem se comportar assim, mulheres assado”. De muitas formas esses códigos são quebrados, mas o vestuário é um assunto especialmente delicado. Pra um homem sair usando roupas femininas, é uma complicação.

Nessa questão da vestimenta, da vaidade… tem uma questão interessante que é o metrossexualismo. Tu veria alguma semelhança entre o metrossexualismo e o crossdressing?

Se você quiser ler dessa forma, não tem problema nenhum. O que me interessa são os momentos e as formas como a rigidez do código de gêneros é quebrada, é rompida.

É uma questão mais política?

É, o que se chama de metrossexualismo – eu nem sei se ainda existe esse tipo de nicho cultural – tava representado pelo uso de alguns cosméticos, de alguns cuidados com a aparência. Mas ele não desafiava os códigos de roupa. Homens continuavam usando essa bosta que é o terno, que é uma prisão (risos).

Eu tenho visto, no século XXI, que os homens têm se tornado mais femininos e as mulheres vêm assumindo algumas características que eram atribuídas ao gênero masculino…

É? Onde cê tá vendo isso? (risos)

Eu sinto isso no meu dia-a-dia… Mas o que tu acha?

Pois é, eu acho que você tem razão de algumas formas. Bem menos do que eu acho que seria necessário a essa altura do campeonato. As mulheres conquistaram o uso de formas de expressão desde o século XIX, tanto de vestuário quanto em postura cultural e agressividade social. Aliás, a luta feminista foi exatamente o que transformou o século XX. O século XX deve os progressos dele principalmente à luta das mulheres. Essa transformação na cara das sociedades é responsabilidade das mulheres, é justamente a presença feminina libertada já de várias… (Piano muito alto)

[Volta o repórter que foi falar com a organização] Olha só, eles vão passar o som daqui a pouco. Mas, a gente pode fazer a entrevista no andar de baixo. 

Vamos?

blomu718-27-10

 

Eu tava falando da mudança de modos femininos e masculinos… Por exemplo: hoje, as meninas passam por processos educacionais relativamente mais livres, mais abertos do que eram antigamente. Mas não de forma disseminada. Em muitas escolas, as mulheres ainda são confinadas a modelos que buscam a eternização da imagem do feminino como algo frágil, como especialmente delicado, sensível, e sei lá mais o quê.  Esse tipo de lorota assim.

Mas, aos homens ainda ficam reservadas as áreas da agressividade, da expansão física. Ainda é um modelo muito praticado. O ódio com que muitos grupos sociais se expressam em relação à transgeneridade, à travestilidade e à homossexualidade também é sinal de que as coisas não estão tão mudadas assim. O ódio e a liberdade com que essas agressões são praticadas no Brasil é bastante impressionante.

Mas há uma tolerância bem maior também.

E uma agressividade bem maior também. Essa tolerância maior é acompanhada do crescimento de grupos de skinheads, por exemplo.

Existem mudanças. Dá pra falar em avanços. Por exemplo, a recente aprovação desse novo estágio civil da união homoafetiva. É um avanço, não dá pra dizer que não é. É o reconhecimento de que isso não é um crime (risos). Não é uma perversão, ufa! (risos) Já é alguma coisa, mas até você reconhecer que são seres normais que devem gozar dos mesmos direitos que os outros, é um longo caminho. O que precisa é que os direitos sejam absolutamente idênticos. Que as pessoas possam se casar independente do sexo. Por outro lado, esses avanços também indicam o quanto há ainda para ser feito.

Tu comentou que o crossdressing é uma questão de gênero e não de sexo. Queria que tu explicasse isso.

Sexo biológico é aquele que a gente nasce: macho, fêmea ou situações fronteiriças. Mas basicamente, machos e fêmeas. Gênero são códigos culturalmente estabelecidos de comportamento, de vestuário, de padrões de desempenho para os indivíduos conforme o sexo biológico que eles tenham. São coisas culturalmente estabelecidas. Sociedades diferentes elaboram códigos diferentes para o homem e para a mulher. Isso é gênero.

Mas, em todas as épocas e em todas as sociedades, sempre houve o comportamento transgênero, que é a inconformidade com os códigos vigentes naquela sociedade. Isso é transgeneridade.

 É aí que tu te enquadra?

É aí que eu e todas as travestis do mundo nos enquadramos (risos), junto com todas pessoas que desejam muito praticar a travestilidade, mas não fazem por medo de perder seus empregos, seus amigos, seus parentes, o amor do seu círculo social. A quantidade de enrustidos e enrustidas é muito grande. A experiência de me travestir tem me mostrado uma ansiedade muito grande das pessoas, que, no meu entender, traduz uma grande vontade reprimida de exercer esse poder, essa liberdade da travestilidade.

É comum tu ver um menino se vestindo com roupas femininas quando é criança.

Sim, e também é comum levar uns tapas por causa disso.

Gostaria que tu desse um exemplo de coisas práticas que mudaram, e que tu acha que foram valiosas, com a travestilidade.

Mudou o meu contato com as pessoas, de forma geral. Pelo menos os primeiros contatos são diferenciados. Existe uma inquietação: em alguns casos, ela evolui pra retomada da normalidade. Em outros, não: é um estranhamento que continua.

Uma experiência positiva é o contato que tenho tido com pessoas que também têm vontade de se travestir e se sentem autorizadas a tentar. De minha parte, eu me sinto melhor. Me sinto mais livre, mais autêntico. Não sei que tipo de palavra usar, mas eu me sinto mais perto de algo que é eu mesmo.

Ajudou o personagem Hugo também?

Pois é, o Hugo é uma espécie de balão de ensaio, um modo de refletir também. Eu tenho mantido ele como personagem ativo porque é uma forma de eu pensar nesse assunto. Eu não faço mais personagens. Fora o Hugo e uma personagem que é a Lola, a andorinha, eu não tenho mais usado nenhum personagem. Tenho feito as histórias, deixo os personagens existirem dentro das situações e pronto. Basta. Quando elas se encerram, muda o time também.

Eu não tenho mais aqueles personagens que eu tinha. E estou procurando não desenhar mais daquela forma caricatural que eu desenhava, nem construir piadas da forma como eu construía. De certa maneira, eu tô recuperando as minhas tradições gráficas da adolescência. Modos de trabalhar que eu tinha deixado de lado em nome do exercício profissional de humorista.

O crossdressing significou uma libertação artística também?

Não sei se “significou” alguma coisa. Colocar nos termos de causa e efeito é complicado pra mim. Eu sei que tá vinculado. É todo um procedimento, uma travessia que eu tô fazendo. Me travestir tem a ver com isso.

Vocês falaram em crossdressing. Não sei… Eu tenho uma certa implicância com essa palavra (risos).

O que tu prefere?

Travesti.

Tu acredita que cada indivíduo traga dentro de si um lado masculino e outro feminino?

É evidente que sim! (risos) Claro que tem.  Mas, é como eu disse, masculino e feminino são conceitos culturais.

Como tu administra isso dentro de ti?

Eu tenho administrado procurando descobrir o que tem sido esses limites e rompê-los, explorando a linguagem feminina. Eu tô, de certa forma, fazendo uma auto-oficina com o vestuário.

É uma questão de auto-conhecimento?

É, também. Não sei se chega a ser de auto-conhecimento. Eu tenho usado isso pra refletir sobre o que é masculino e feminino. A princípio, sim, eu acho que cada um tem isso dentro de si, mesmo porque não é algo que exista. Isso foi criado. Como é algo que foi criado, não existe em estado puro (risos).

O que distingue homens e mulheres, se é que existe tanta coisa assim, são certas características biológicas. O resto é prática, prática social. E a sociedade muda, só que muitas vezes mantém de forma reacionária certos bolsões… Não sei, aquilo acaba sendo uma espécie de ponto de honra: “Não! Homem de saia, jamais! Batom ok, mas saia jamais!” ou “saia tudo bem, mas batom não!”.

Você falou dos metrossexuais, mas é um termo absolutamente infeliz, porque ele procura vincular sexualidade a exercício de gênero. E isso é falso pra mim. Gênero é uma coisa, sexualidade é outra. Então, como eu tava falando, sexo biológico é macho e fêmea; orientação sexual é pra onde o desejo da pessoa aponta: pra homens, pra mulheres, pros dois, enfim; e gênero é outra coisa.

O fato de tu te travestir não afeta em nada a sexualidade.

Não é necessário que afete. Deve ser entendido como um exercício de expressão. Pode se conectar ou se flexionar também com orientação sexual. Eu sou bissexual, mas eu poderia ser bissexual vestindo qualquer roupa.

Até porque na hora não se usa roupa, né?

É! Não a de pano…

Era uma coisa que tu já trazia dentro de ti, a vontade de se expressar de uma forma feminina?

Eu acho que sim. Não é uma coisa muito clara pra mim, mas desconfio que sim. De alguma forma, tava lá, desde a minha infância e a minha adolescência, a vontade de frequentar o mundo das meninas.

E tu tem claro dentro de ti por que…

Não! Nem precisa terminar a pergunta. Não tenho claro isso. Eu só sei o que não é pra ser feito: bloquear. O que eu não quero é continuar bloqueando essas coisas.

Mas não tem alguma ideia de porque isso se expressou agora, depois de uma certa idade?

Eu suponho que é porque eu já tava me sentido livre e desimpedida daquilo que me tolhia (risos).

E o que tava te tolhendo?

Provavelmente, as mesmas coisas que bloqueiam milhares de pessoas pelo mundo afora: sentimentos de inadequação, o medo do ridículo, o medo de si própria, o medo do que pode ser liberado junto com essa novidade… o medo da liberdade, né? “Ok. E agora que eu sou livre, como hei de me compreender?”.

blomu721-17-11

Texto: Ariel Fagundes e Marcus Pereira / Ilustrações: Laerte

Perguntas

16/05/2013

Por Chico Guazzelli 

Lembro que no Fórum Social Temático realizado aqui em Porto Alegre no ano passado, eu circulava pelos corredores do grandioso prédio do Direito da Ufrgs me preparando para entrevistar Emir Sader para a verão impressa do Tabaré. Foi quando avistei Ignácio Ramonet que acabara de dar uma entrevista para a TV Brasil. Rapidamente puxei o gravador correndo e enquanto pensava em qual pergunta fazer. A cabeça pirava naquele fim de tarde, dum dia cheio em que entrevistei Boaventura de manhã e Ale Menezes e outros jogadores sem clubes no inicio da tarde. Lembrei dos textos de Ramonet no começo da faculdade. Logo convenci-o para a entrevista e liguei o gravador:

- O que o senhor acha da relação do governo Brasileiro com a mídia, comparando com a Argentina e a Venezuela, por exemplo?

A resposta, simples, abalou o pequeno jornalista que espichava o braço para captar o som:

- Do Brasil não sei nada – e saiu sorrindo.

Essa introdução aparentemente esquizofrênica para uma coluna de esportes é um episódio que veio a mim nas ultimas semanas, ao assistir verdadeiros desastres na reportagem esportiva. A hora da pergunta. Na coletiva cheia, a cada pergunta feita o repórter já formula outras perguntas na cabeça. Que julga, assim como eu no caso Ramonet, serem geniais.

Como na ultima pergunta duma coletiva do treinador da seleção brasileira. O repórter se dirige ao gigantesco Felipão e fala: Felipão em caso de um fracasso na copa das confederações o senhor se demitiria do cargo de treinador da seleção? Felipão apenas disse “Piada.” E foi embora.

Realmente, uma piada. Na ultima terça-feira o goleiro do Palmeiras saiu de campo assumindo o frango que tomou e a responsabilidade da derrota e o repórter questionou: o seu futuro no Palmeiras fica comprometido depois desse gol tomado? O goleiro, o vilão do momento, a cabeça atormentada em virtude de um momento de descuido, responde “não. Tu acha? Tenho confiança no meu trabalho.”

Dois momentos horríveis para o jornalismo (e aqui não digo esportivo por não separar o jornalismo e o dito esportivo). A pergunta. Claro que a pressão, a velocidade dos meios de comunicação atuais, tudo isso atormenta os repórteres neste momento sagrado das perguntas. Mas o nível chegado nestes episódios é grotesco. Perguntar para o treinador da seleção brasileira se ele em caso de derrota numa competição que se realizará dois meses adiante, se demitiria do cargo. Será que por algum momento o repórter cogitou vir uma resposta?

Lembro também um caso emblemático do ano passado (ou 2011) quando Barcos ainda jogava no Palmeiras, e o repórter usou sua pergunta na coletiva para saber se o argentino se achava parecido com o Zé Ramalho.  Ou então quando Loco Abreu errou um gol e foram perguntar sobre o lance ser do Inacreditável FC, quadro que os gênios da globo criaram para mostrar e ridicularizar os gols mais perdidos.

O jornalismo esportivo não deixa de ser jornalismo. Os envolvidos são profissionais, apesar de em geral não serem tratados como tais. A especulação, a fofoca, a brincadeira jocosa. Deixem isso de lado, perguntadores! Deixem de lado a manchete sensacionalista e o objetivo da empresa que os paga para terem suas brincadeiras badaladas, deixem de lado o constrangimento, parem de buscar o estrelato. Perguntem. Lembrem que do outro lado está um goleiro, um treinador ou um centroavante. Profissionais. Às vezes bem pagos, às vezes superficiais, às vezes frágeis demais, mas sempre profissionais.

Olhem nos olhos das pessoas. Derrotas, frangos e gols perdidos, todos temos os nossos. Como a pergunta pro Ramonet me ensinou, espero que estes episódios ensinem uma valiosa lição para os envolvidos.

A favor da popularização da música clássica

15/05/2013

Por Morena

Muitos ainda pensam nos gênios da música erudita ocidental de forma pomposa e elitizada, aquele senso comum de que este tipo de música é feita pelos e para os ricos. Não é bem assim: a elitização da música clássica é somente uma das formas de enxergar o cenário, quando antigamente esse tipo de manifestação musical era limitado às altas camadas sociais como a nobreza e o clero. Mas cá entre nós, atualmente essa opinião pré-fabricada e nada original sobre a música erudita está um tanto desatualizada e impressionantemente é cada vez mais recorrente.

Para começar, pensemos nos músicos que compunham e executavam aquela música e não somente a quem aquele som se destinava. Mozart, por exemplo, viveu pobre e à mercê do salário da corte até sua morte. Isso mesmo, o gênio intocável do período clássico era um mero mortal e tinha dificuldades financeiras provavelmente mais graves que a maioria de nós hoje. Naqueles tempos (e, para alguns, também no nosso tempo), não era nada pomposo ser músico, que dirá Mozart. A música marginalizada daquela época era então a folclórica, o berço da música popular, deixando todo o glamour e complexidade para a erudita.

Porém me parece que esse tabuleiro virou, e hoje a música marginalizada é a erudita. A música popular tomou conta dos meios de comunicação e do cotidiano e pode ser considerada completamente acessível às criaturas ouvintes. Todos entendem de popular e todos conseguem opinar sobre esse ou aquele estilo com convicção. E que maravilha! O acesso às diferentes sonoridades é abundante e importante. Mas às vezes tenho pressentimentos terríveis quanto ao futuro da música clássica, que permanece intocável e incompreensível para a maioria. Nesse sentido, alguns obstáculos são enfrentados no que diz respeito à acessibilidade deste gênero musical. Em contraponto com o orçamento da instrumentação clássica, que é bem mais custoso que a maioria dos instrumentos populares e folclóricos, o espaço de apreciação da música erudita é bem mais limitado.

Enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira quase perde o apoio da prefeitura do Rio de Janeiro, aqui a OSPA se desdobra para conseguir espaços para os concertos e ensaios. E nesse ritmo, as orquestras se tornam cada vez mais dependentes de acordos políticos e grandes patrocinadores. Não quero entrar no mérito da escassez crônica de trabalho na música, nem no desinteresse mais do que descarado que o governo tem de investir em arte e cultura em geral, as duas questões são tão epidêmicas na música popular quanto na erudita. A reflexão aqui é feita mesmo nos espaços de apreciação deste gênero. O que eu vejo hoje são concertos de altíssima qualidade (e de ingressos com preço amigo) com plateias pequenas, (os concertos mais lotados são os de repertório popular) e os motivos para o desinteresse nesse tipo de espetáculo nunca me convenceram muito bem.

Há quem diga que a música clássica não se reciclou, e que hoje não representa mais a vida contemporânea. Eu acho que isso é uma desculpa para fechar os ouvidos. O papo também de que as pessoas não se identificam com esse tipo de música me soa um tanto ignorante. Em tempos de filmes com altas trilhas sonoras que nos arrepiam no cinema, ouvir música erudita faz parte de todos nós. Aí entramos em uma questão de educação musical, que é escassa no nosso país e que deixa esse aspecto a dever no que diz respeito ao preconceito musical de nós mesmo ainda novinhos. O importante é não esquecer que a música é uma arte e que todos os diferentes tipos de manifestação dessa arte são entrelaçados de alguma forma um ao outro.

Note que ninguém é obrigado a gostar de absolutamente tudo o que ouve, mas ouvir, sem amarras nem preconceitos, é essencial. O que falta, muito na raiz do problema, é a utilização do ouvido em sua totalidade: para ouvir. DE TUDO.

Aproveito essa deixa para desafiar a quem interessar possa a não se sensibilizar com Debussy, não se incomodar com Shöenberg e não dar uma dançadinha com Gershwin.

 

 

 

COMPROMETIDO

10/05/2013

Por Chico Guazzelli 

Alexandre Lops  - Divulgação Internacional

Alexandre Lops – Divulgação Internacional

Muitos ídolos existem na história do futebol mundial. O meu maior ídolo é o Maradona, não foi o melhor jogador, mas foi quem mais me emocionou e contagiou. Pelé é o maior atleta física e tecnicamente, inegável. Foi um poeta. Garrincha, Romário, Ronaldo e Rivaldo, também contaram a história do futebol.
Mas nos últimos 25 anos um coadjuvante é protagonista no futebol brasileiro. Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga. O homem das eras, no futebol Brasileiro.
Nascido em Ijuí, formado pelo Internacional nos anos 80, já jogava pelas seleções de base brasileira. Brilhou em equipes do Brasil, na Itália e na Alemanha. Mas sempre será lembrado pela faixa de capitão do tetra.
Antes da glória, a Era Dunga foi criada e destruída na Copa de 90, quando Maradona de quatro assistiu a Caniggia marcar o gol da Argentina eliminando a seleção de Lazaroni, Mauro Galvão e Careca. Sentenciado como a cara da derrota, Dunga continuou comprometido e quatro anos depois, desacreditado, levantou a taça do mundo.
Virou ícone, da garra e do comprometimento com a seleção. Passou incólume do fiasco de 98. Aposentou-se da seleção. No retorno ao Inter, clube que o revelou, amargou a reserva para no último jogo marcar o gol que evitou a queda para segunda Divisão.
Anos se passaram de idolatria consolidada até o fiasco da seleção de 2006, marcada pela bagunça e pelas estrelas não comprometidas com o Brasil, fazer com que Dunga fosse novamente chamado. Mais uma era. Dunga treinou a seleção como a sua cara: sem confortos para jogadores ou para a Rede Globo. Foi eliminado, junto com seus jogadores comprometidos e fiéis, de virada para a Holanda depois de um primeiro tempo de domínio brasileiro.
Caiu o mundo de Dunga, virou vilão. Os xingamentos, os adjetivos e os rótulos voltaram. Dunga se compromete com o que é correto para ele. Foi assim que superou as pedradas e as pauladas. Dizem que quem bate esquece e quem apanha nunca esquece, pois bem, Dunga age com o pé atrás com a imprensa e com as badalações. Foi o acerto da diretoria do Inter, vem montando um grupo, talvez sem tanta qualidade como tinha o Inter do ano passado. Mas D’alessandro reencontrou o futebol, como Forlán e aos poucos Damião.
O colorado sem reforços talvez fique longe do título nacional, mas uma coisa é certa sobre este ano colorado: não faltará organização e comprometimento dos jogadores, como tanto faltou nos anos anteriores.
Quanto aos resmungos de Dunga, sempre serão bem vindos ao meu ouvido. Num país que aos poucos tenta lembrar quem o torturou tanto, ao menos uma boa memória é louvável.

Editorial #21

08/05/2013
tags:
por

Porto Alegre me dói, não diga a ninguém… Ou quem sabe diz pra todo mundo, que é pra ver se a gente acorda um pouco mais! Bota aí que a minha dor vem das avenidas feias que todos os dias agridem os meus olhos, quando o cinza desnecessário da cidade atravessa a vidraça do ônibus lento, tri lento!, tri caro, tri lotado.

Conta pro judeu do Bom Fim e pro negão da Restinga que esta cidade que a gente tem poderia ser bem outra, se os erros do passado ficassem por lá, se o futuro fosse aqui, se o nosso arroio não fedesse, se o nosso lago não se escondesse. É preciso lembrar e relembrar mil vezes que nada disso é natural, que não estamos condenados a uma cidade feia e excludente, a um shopping a céu aberto que nos separa do nosso vizinho e da nossa identidade, a um feudo programado apenas para funcionar durante as duas semanas do Estado de Exceção da Copa da FIFA.

Na história de Porto Alegre abundam as demolições e os esquecimentos, os desperdícios e os espelhinhos estupidamente comprados. Hoje em dia o poder local semeia o silêncio, sempre que consegue, e a mentira, apenas quando respira. A atual cúpula porto-alegrense derruba árvores e direitos, sob os aplausos da imprensa de sempre, e se diz construtora da Porto Alegre do futuro. Ora bolas, não é esse o mesmíssimo discurso que vimos ao longo do século XX inteiro? Será que os poderosos da província condenam o “passadismo” europeu, que conserva seus edifícios e hábitos centenários, seu patrimônio enfim? Imagino que não, pois é lá que passam férias.

Dois pesos, duas medidas. A cidade que temos é moeda de troca, mercadoria barata para construtoras que financiam campanhas, para políticos que negociam promessas e esperanças do povo, para a máfia do transporte que se alimenta do suor dos arrabaldes!

Dois pesos, duas medidas. Os bons exemplos de urbanismo dos quatro cantos do mundo são ignorados e combatidos, servem como perfeito modelo do que não se faz por aqui.

Convite para um rápido exercício de memória: dá uma olhada nas fotos deste Porto Alegre antigo, nas imagens da cidade sem carros e espigões. Confere a arquitetura colonial hoje praticamente extinta, a neoclássica cada vez mais rara… Será que nesta cidade não caberiam todas as outras que já tivemos?

Que belo sonho quase impossível o de termos uma cidade mais harmônica e bonita, mais atraente para porto-alegrenses e forasteiros, uma cidade humana de velhinhos e crianças na calçada, largas calçadas plenas de árvores.

Que bela aventura viver neste Porto que já quase se levanta, antes tarde do que mais tarde!, dando exemplos de vida e de amor coletivo. Porto Alegre me tem, não leve a mal…

img555

Ilustração: Bai Balthazar

Enquanto o Tabu não vem

08/05/2013

Por Leonardo Bomfim

Onde a terra se acaba e o mar começa, como alguém já definiu, existe um dos cenários mais promissores do cinema contemporâneo. Nem é novidade o lugar cativo de Portugal no mapa da cinefilia – e a aguardada estreia de Tabu, o premiado terceiro longa-metragem de Miguel Gomes, prometida para o próximo mês, apenas reforça o óbvio: já passou a hora do Brasil grudar os olhos nas realizações portuguesas.

Tabu | Still do filme

Tabu | Still do filme

Porto Alegre teve uma ótima oportunidade com a mostra que o Santander Cultural apresentou em abril, exibindo filmes significativos dos últimos anos e algumas novidades abusadas, como Deste Lado da Ressurreição (2011), de Joaquim Sapinho, que gira em torno de uma família em crise e aproxima, com alguns tropeços, dois universos aparentemente estrangeiros; surf e religiosidade

Crise parece ser a palavra certa para definir o estado das coisas do país lusitano escancarado na criação cinematográfica. Dos nomes mais importantes, João Canijo foi representado por seu último filme, Sangue do Meu Sangue (2011), outra obra que mergulha em entranhas familiares. Aqui, uma mãe tenta contornar os diversos problemas que seus filhos trazem para casa: do envolvimento com traficantes ao envolvimento com os homens errados. É um filme de cenas fortes e de rara precisão na construção narrativa. Chama atenção o modo como Canijo constrói situações em que os constantes desgostos dos personagens se misturam – a câmera não escolhe o que vai destacar e o espectador, mesmo às duras penas, precisa entender que aquilo tudo realmente acontece e precisa ser mostrado ao mesmo tempo.

As imagens dos prédios de Lisboa que encerram a história dão a entender que aqueles dramas fazem parte de um contexto atual do país que transcende as experiências individuais. O mal-estar de uma crise que é tão existencial quanto social parece estar em todo filme português contemporâneo, aliás. É o que encontramos, já em outro continente, no inclassificável A Última Vez que Vi Macau (2012), de João Pedro Rodrigues, com co-direção de João Rui Guerra da Mata. A constatação do narrador é cruel: séculos de colonização portuguesa e ninguém entende o idioma no país. Portugal é apenas um fantasma que ainda se arrasta ali, em nomes de ruas, prédios, na arquitetura engolida pelos arranha-céus chineses. Mas a obra lisboeta de Canijo também sugere que o país existe como fantasma em seu próprio território.

Sangue do meu sangue | Still do filme

Sangue do meu sangue | Still do filme

A Última Vez que Vi Macau é um inusitado ensaio autoficcional em que as imagens da ex-colônia portuguesa, algumas extremamente genéricas, são tomadas por uma narração sonora que descobrem uma trama policial envolvendo um travesti em fuga de um misterioso bando chinês comandado pela Madame Lobo. O estranhamento promovido pelo encontro entre a narração fantasiosa e as imagens documentais do país é o trunfo de uma obra que escorrega feio quando opta pelas reminiscências afetivas, num registro próximo aos ensaios mais melancólicos de Wim Wenders. Mas ainda assim, o filme parece muito sintonizado com os ventos do cinema contemporâneo, não apenas portugueses, que pedem pela imaginação como norte criativo, em histórias que se bifurcam, se desdobram, sem precisar recorrer a estruturas labirínticas típicas do cinema moderno pós-1960. Não é mais questão de jogar com o tempo, como ensinou Alain Resnais, mas de jogar com a independência das próprias narrativas.

É aí que encontramos Miguel Gomes. Ao lado do mágico tailandês Apichatpong Weerasethakul, o português é o principal cineasta dos nossos dias a apostar na ideia de que o cinema deve oferecer não apenas filmes imaginativos, mas filmes sobre a imaginação. Seu cinema é de cronópio: já fica claro em seu primeiro longa-metragem, A Cara Que Mereces (2004), que consegue misturar o gosto pelo jogo de um Jacques Rivette, o homem lúdico da Nouvelle Vague, com Branca de Neve e os Sete Anões – numa aura cortaziana que o cinema poucas vezes conseguiu se apropriar.

E agora surge Tabu, filme que causou alvoroço em todos os festivais e mostras por onde passeou. É uma palavra mística da história do cinema, dá nome ao testamento inesperado de F.W. Murnau, que morreu antes mesmo da estréia da obra, em 1931, num acidente de carro. Sempre que alguém a coloca em jogo, os deuses arregalam os olhos e ameaçam sacudir a Terra. No caso de amor proibido entre habitantes de uma ilha dos mares do sul, temos não apenas os últimos suspiros do cinema silencioso, mas também o encontro entre o maestro alemão, o homem da imagem certa, com Robert Flaherty, pioneiro do documentário e também um dos primeiros a perceber que no cinema a mentira pode ser verdadeira. É muita coisa para um filme só – e o mais assustador é que se trata, acima de tudo, de uma obra extremamente simples. Alguns celebram no Tabu de Murnau e Flaherty um encontro precioso entre realidade e ficção, talvez a primeira grande quimera cinematográfica. Tenho lá minhas dúvidas, mas o fato é que o filme dos anos 1930 ainda hoje figura como algo especialmente singular. O Tabu de Gomes, ao que parece, não atravessará a história do cinema sem causar alguma tormenta.

Fotos II anos Tabaré

07/05/2013

A festa de II anos do Tabaré teve cobertura fotográfica do sete / nove, confere aí.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 65 other followers